Textos da Internet

30.6.04

 

A Chave do Enigma Presidencial

Por JOÃO PEDRO HENRIQUES
Quarta-feira, 30 de Junho de 2004

Achará o Presidente da República que um novo governo da coligação PSD/CDS-PP, agora com Durão Barroso em Bruxelas, será "capaz de mobilizar as energias nacionais para as tarefas que se colocam ao país"? É esta a chave do raciocínio de Jorge Sampaio quanto ao dilema que enfrenta - eleições antecipadas ou não.

No prefácio da sua penúltima súmula de discursos - "Portugueses - volume VI", escrito em Março/Abril de 2002 - Jorge Sampaio discorre longamente sobre os seus poderes. O quadro político em que o prefácio foi escrito é conhecido: o primeiro-ministro António Guterres tinha-se demitido na sequência de eleições autárquicas desastrosas para o PS. Jorge Sampaio, pressionado por todos os partidos parlamentares, não teve outro remédio senão dissolver o Parlamento eleições legislativas, as quais confirmaram que o PS deixara de ser o partido mais votado, passando a ser o PSD (e tornando-se a direita - PSD+CDS - maioritária, o que antes não acontecia).

Para Jorge Sampaio, a dissolução da Assembleia da República - isto é, a convocação de legislativas antecipadas - "só deve, em geral, ocorrer quando o Parlamento se mostre incapaz de gerar soluções governativas estáveis". Ou então, também, "como forma de previnir ou solucionar crises políticas ou institucionais graves" ou ainda "por necessidades, consensualmente reconhecidas, de adaptação dos calendários eleitorais".

Não sendo assim, só por "circunstâncias excepcionais e muito estritamente delimitadas", por exemplo a de que o Presidente, na sua "avaliação pessoal e maduramente ponderada", "conclua que o interesse nacional exige uma relegitimação da representação parlamentar, quando se convença de que a composição parlamentar deixou definitivamente de corresponder à vontade do eleitorado".

É aqui, na sequência deste raciocínio, que o Presidente introduziu como factor de ponderação para a decisão de dissolver a Assembleia um outro factor: "Quando considere que [a composição parlamentar] não permite a formação de um Governo capaz de mobilizar adequadamente as energias nacionais para as tarefas que se colocam ao país". Seja como for, para o fazer terá de se sentir "persuadido" de que "há uma predisposição nacional para gerar, nas consequentes eleições, anternativas consistentes aos poderes em funções".

No prefácio, Jorge Sampaio salienta ainda que não compete ao Presidente da República "forjar alternativas políticas aos governos em exercício não integra o perfil da função presidencial". E salienta, mais adiante, ter uma "concepção estável, testada e comprovada" dos poderes presidenciais.

Achará Jorge Sampaio que um novo governo formado no actual quadro parlamentar será "capaz de mobilizar as energias nacionais para as tarefas que se colocam ao país"? Achará que "há uma predisposição nacional para gerar, nas consequentes eleições, alternativas consistentes aos poderes em funções"? Estará convencido "de que a composição parlamentar deixou definitivamente de corresponder à vontade do eleitorado"? Nada é claro, para já, no que toca ao pensamento presidencial. O prefácio indica pistas - mas não caminhos.

A FRASE
"A dissolução da Assembleia da República, só deve, em geral, ocorrer quando o Parlamento se mostre incapaz de gerar soluções governativas estáveis, como forma de prevenir ou solucionar crises políticas ou institucionais graves ou por necessidades, consensualmente reconhecidas, de adaptação dos calendários eleitorais. A não ser nessas situações, ela só deve verificar-se em circunstâncias excepcionais e muito estritamente delimitadas"

Jorge Sampaio, Presidente da República

in prefácio de "Portugueses - volume VI",

29.6.04

 

Video.grafias

Introdução ,Teoria da Comunicação ,Comunicação Audiovisual ,Imagem ,Som ,Guião ,Realização ,Projecto.

15.6.04

 

Thirty-eight dishonest tricks which are commonly used in argument, with the methods of overcoming them

This is taken from "Straight and crooked thinking" by Robert H. Thouless, Pan Books, ISBN 0 330 24127 3, copyright 1930, 1953 and 1974. Heartily recommended.

In most textbooks of logic there is to be found a list of "fallacies", classified in accordance with the logical principles they violate. Such collections are interesting and important, and it is to be hoped that any readers who wish to go more deeply into the principles of logical thought will turn to these works. The present list is, however, something quite different. Its aim is practical and not theoretical. It is intended to be a list which can be conveniently used for detecting dishonest modes of thought which we shall actually meet in arguments and speeches. Sometimes more than one of the tricks mentioned would be classified by the logician under one heading, some he would omit altogether, while others that he would put in are not to be found here. Practical convenience and practical importance are the criteria I have used in this list. If we have a plague of flies in the house we buy fly-papers and not a treatise on the zoological classification of Musca domestica. This implies no sort of disrespect for zoologists; or for the value of their work as a first step in the effective control of flies. The present book bears to the treatises of logicians the relationship of fly-paper to zoological classifications. Other books have been concerned with the appraisal of the whole of an argumentative passage without such analysis into sound and unsound parts as I have attempted. Undoubtedly it is also important to be able to say of an argued case whether it has or has not been established by the arguments brought forward. Mere detection of crooked elements in the argument is not sufficient to settle this question since a good argumentative case may be disfigured by crooked arguments. The study of crooked thinking is, however, an essential preliminary to this problem of judging the soundness of an argued case. It is only when we have cleared away the emotional thinking, the selected instances, the inappropriate analogies, etc, that we can see clearly the underlying case and make a sound judgement as to whether it is right or wrong.

The thirty-eight dishonest tricks of argument described in the present book are the following:
(1) The use of emotionally toned words (pp 10-25)
Dealt with by translating the statement into words emotionally neutral
(2) Making a statement in which "all" is implied but "some" is true (pp 27-38)
Dealt with by putting the word "all" into the statement and showing that it is then false.
(3) Proof by selected instances (pp 32-37)
Dealt with dishonestly by selecting instances opposing your opponent's contention or honestly by pointing out the true form of the proof (as a statistical problem in association) and either supplying the required numerical facts or pointing out that your opponent has not got them.
(4) Extension of an opponent's proposition by contradiction or by misrepresentation of it (pp 39-43)
Dealt with by stating again the more moderate position which is being defended.
(5) Evasion of a sound refutation of an argument by the use of a sophistical formula (pp 41-44)
Dealt with by analysis of the formula and demonstration of its unsoundness.
(6) Diversion to another question, to a side issue, or by irrelevant objection (pp 44-48)
Dealt with by refusing to be diverted from the original question, but stating again the real question at issue.
(7) Proof by inconsequent argument (pp 49-50)
Dealt with by asking that the connection between the proposition and the alleged proof may be explained, even though the request for explanation may be attributed to ignorance or lack of logical insight on the part of the person making it.
(8) The argument that we should not make efforts against X which is admittedly evil because there is a worse evil Y against which our efforts should be directed (pp 50-52)
Dealt with by pointing out that this is a reason for making efforts to abolish Y, but no reason for not also making efforts to get rid of X.
(9) The recommendation of a position because it is a mean between two extremes (pp 52-54)
Dealt with by denying the usefulness of the principle as a method of discovering the truth. In practice, this can most easily be done by showing that our own view also can be represented as a mean between two extremes.
(10) Pointing out the logical correctness of the form of an argument whose premisses contain doubtful or untrue statements of fact (p 58)
Dealt with by refusing to discuss the logic of the argument but pointing out the defects of its presentations of alleged fact.
(11) The use of an argument of logically unsound form (pp 58-64)
Since the unsoundness of such arguments can be easily seen when the form of the argument is clearly displayed, an opponent who does this can be dealt with by making such a simple statement of his argument that its unsoundness is apparent. For one's own satisfaction when reading an argument of doubtful soundness, it will often be found useful to make a diagram.
(12) Argument in a circle (p 64)
(13) Begging the question (pp 65-66)
Both 12 and 13 can be dealt with in the same way as 11; by restating your opponent's argument in such a simple way that the nature of the device used must be clear to anyone.
(14) Discussing a verbal proposition as if it were a factual one, or failing to disentangle the verbal and factual elements in a proposition that is partly both (pp 67-77)
This is really an incompetent rather than a dishonest way of arguing. The remedy is to point out how much of the question at issue is a difference in the use of words and how much (if at all) it is a difference as to fact or values.
(15) Putting forward a tautology (such as that too much of the thing attacked is bad) as if it were a factual judgement (pp 71-72)
Dealt with by pointing out that the statement is necessarily true from its verbal form.
(16) The use of a speculative argument (pp 78-83)
Rebutted by pointing out that what is cannot be inferred from what ought to be or from what the speaker feels must be.
(17) Change in the meaning of a term during the course of an argument (pp 88-94)
Dealt with by getting the term defined or by substituting an equivalent form of words at one of the points where the term in question is used and seeing whether the use of this form of words will make true the other statements in which this term is used.
(18) The use of a dilemma which ignores a continuous series of possibilities between the two extremes presented (pp 103-105)
Dealt with by refusing to accept either alternative, but pointing to the fact of the continuity which the person using the argument has ignored. Since this is likely to appear over-subtle to an opponent using the argument, it may be strengthened by pointing out that the argument is the same as saying, "Is this paper black or white?" when it is, in fact, a shade of grey.
(19) The use of the fact of continuity between them to throw doubt on a real difference between two things (the "argument of the beard") (pp 105-108)
Dealt with by pointing out that the difference is nevertheless real. This again may be made stronger by pointing out that application of the same method of argument would deny the difference between "black" and "white" or between "hot" and "cold".
(20) Illegitimate use of or demand for definition (p 109)
If an opponent uses definitions to produce clear-cut conceptions for facts which are not clear-cut, it is necessary to point out to him how much more complicated facts are in reality than in his thought. If he tries to drive you to define for the same purpose, the remedy is to refuse formal definition but to adopt some other method for making your meaning clear.
(21) Suggestion by repeated affirmation (pp 111-114)
(22) Suggestion by use of a confident manner (pp 114-115)
(23) Suggestion by prestige (pp 115-118)
The best safeguard against all three of these tricks of suggestion is a theoretical knowledge of suggestion, so that their use may be detected. All three devices lose much of their effect if the audience see how the effect is being obtained, so merely pointing out the fact that the speaker is trying to create conviction by repeated assertion in a confident manner may be enough to make this device ineffective. Ridicule is often used to undermine the confident manner, or any kind of criticism which makes the speaker begin to grow angry or plaintive.
(24) Prestige by false credentials (pp 115-118)
The obvious remedy for this is, when practical, to expose the falsity of the titles, degrees, etc, that are used. The prestige then collapses.
(25) Prestige by the use of pseudo-technical jargon (pp 116-118)
Best dealt with by asking in a modest manner that the speaker should explain himself more simply.
(26) Affectation of failure to understand backed by prestige (pp 118-119)
Dealt with by more than ample explanation.
(27) The use of questions drawing out damaging admissions (pp 199-120)
Dealt with by refusal to make the admissions. The difficulty of this refusal must be overcome by any device reducing one's suggestibility to the questioner.
(28) The appeal to mere authority (pp 122-125)
Dealt with by considering whether the person supposed to have authority had a sound reason for making the assertion which is attributed to him.
(29) Overcoming resistance to a doubtful proposition by a preliminary statement of a few easily accepted ones (pp 128-130)
Knowledge of this trick and preparedness for it are the best safeguard against its effects.
(30) Statement of a doubtful proposition in such a way that it fits in with the thought- habits or the prejudices of the hearer (pp 133-135 and p 157)
A habit of questioning what appears obvious is the best safeguard against this trick. A particular device of value against it is to restate a questionable proposition in a new context in which one's thought-habits do not lead to its acceptance.
(31) The use of generally accepted formulae of predigested though as premisses in argument (pp 161-166)
The best way of dealing with predigested thinking in argument is to point out good- humouredly and with a backing of real evidence that matters are more complicated than your opponent supposes.
(32) "There is much to be said on both sides, so no decision can be made either way", or any other formula leading to the attitude of academic detachment (pp 166-167)
Dealt with by pointing out that taking no action has practical consequences no less real than those which result from acting on either of the propositions in dispute, and that this is no more likely than any other to be the right solution of the difficulty.
(33) Argument by mere analogy (pp 169-178)
Dealt with by examining the alleged analogy in detail and pointing out where it breaks down.
(34) Argument by forced analogy (pp 178-179)
The absurdity of a forced analogy can best be exposed by showing how many other analogies supporting different conclusions might have been used.
(35) Angering an opponent in order that he may argue badly (pp 146-147)
Dealt with by refusing to get angry however annoying our opponent may be.
(36) Special pleading (pp 154-156)
Dealt with by applying one's opponent's special arguments to other propositions which he is unwilling to admit.
(37) Commending or condemning a proposition because of its practical consequences to the bearer (pp 157-158)
We can only become immune to the effect of this kind of appeal if we have formed a habit of recognizing our own tendencies to be guided by our prejudices and by our own self-interest, and of distrusting our judgement on questions in which we are practically concerned.
(38) Argument by attributing prejudices or motives to one's opponent (p 159)
Best dealt with by pointing out that other prejudices may equally well determine the opposite view, and that, in any case, the question of why a person holds an opinion is an entirely different question from that of whether the opinion is or is not true.
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A similar list of graphical failures and how to correct them can be found in Howard Wainer: Visual Revelations.

Rule 1: Show as little data as possible (minimize the data density)
Rule 2: Hide the data you do show (minimize the data/ink ratio)
Rule 3: Ignore the visual metaphor altogether
Rule 4: Only order matters
Rule 5: Graph data out of context
Rule 6: Change scales in mid-axis
Rule 7: Emphasize the trivial (ignore the important)
Rule 8: Jiggle the baseline
Rule 9: Alabama first!
Rule 10: Label: (a) illegibly, (b) incompletely, (c) incorrectly, and (d) ambiguously
Rule 11: More is murkier: (a) more decimal places and (b) more dimensions
Rule 12: If it has been done well in the past, think of a new way to do it

14.6.04

 

Derrick De Kerckhove

"A Globalização É a Mensagem" da Internet
Por POR ABEL COENTRÃO (TEXTO) E HUGO DELGADO (FOTOS).
Domingo, 13 de Junho de 2004

A herança de Mc Luhan é reinventada à velocidade com que os meios de comunicação evoluem e transformam a nossa forma de estar no mundo, esse lugar onde a ideia de "aldeia global" está a abrir espaço à individualidade. Ideias do académico Derrick De Kerckhove, em entrevista dada ao PÚBLICO numa recente deslocação à Universidade do Minho.

PÚBLICO- McLuhan ficará sempre associado ao conceito de "aldeia global". Esta ideia ainda faz sentido?
O "global" faz sentido. A "aldeia" não. Ou faz, mas não de maneira tão intensa. A globalização é a mensagem do "media" rede. É a consequência da electricidade, um dos primeiros passos da verdadeira maturação da electricidade, e da psicologia da electricidade. A globalização não é uma questão de Economia, mas da Psicologia. Sempre foi, mas as pessoas não o sabem. Em termos políticos, ao mesmo tempo que é, de facto, uma questão de Economia - porque a globalização serve os interesses das corporações globais, mais do que as locais - deveria ser prioritariamente considerada "globalismo", uma maneira através da qual o planeta, finalmente, reganha o sentido da partilha de recursos. Eu penso que é algo que provavelmente vai acontecer, não em relação ao dinheiro ou aos bens, mas em alguma coisa que poderia ser comparada ao que está a acontecer no Iraque. Não me refiro às bombas, claro. A única coisa de positivo nesta guerra é que Bush está a forçar a atenção para uma cultura e ambiente diferentes, que partilham o espaço global connosco. E que é uma aldeia. E se ainda há o lado de "aldeia" de que falava McLuhan, eu diria que isso acontece porque cada país tem a personalidade arrogante do aldeão que diz "Hei, estou aqui. Eu sou daqui. Se também és, melhor..."

Defende que, com a internet, passamos a ter um razoável grau de independência psicológica. Em que sentido?

Em primeiro lugar, porque em vez de estarmos possuídos pela fascinação do hipnotismo do ecrã de vídeo, estamos a interagir com esse ecrã ou com a máquina que o suporta, estamos a partilhar a responsabilidade da produção de sentido. Temos uma voz. Podemos responder à máquina, e expressar-nos. De alguma forma, o computador ainda antes de estar em rede era já uma espécie de livro electrónico, uma caneta electrónica que nos permitia tomar o controlo da linguagem, da mesma maneira que ler e escrever nos permitem fazer. Agora que é uma "network", esse controlo está a ser partilhado em conexão com outras pessoas, novas configurações e associações estão a ser formadas, sem que percamos a nossa identidade e o nosso controlo sobre o significado. Partilhamo-lo somente nos termos em que é necessário. Eu sinto que quando a electricidade se transforma em algo cognitivo suporta a individualidade, não a destrói.

Na sua última conferência em Lisboa, Manuel Castells afirmou que os Governos detestam a internet porque ela lhes retira o monopólio da comunicação e da informação, sobre o qual se baseou o seu poder ao longo da história. Concorda?

Gosto muito de Manuel Castells. É um dos maiores pensadores da "sociedade em rede". É imbatível nessa área. Concordo com tudo o que ele diz, em geral, mas neste ponto particular, eu talvez faça um excepção porque a minha experiência no Canadá - e eu não sei se ele se refere ao Canadá - diz-me que o Governo adoptou a internet com entusiasmo. Foi um dos primeiros a dotar as escolas com ligações à rede; tem uma das mais avançadas estruturas de "e-government"; e também tem uma das experiências mais interessantes nos mais recentes desenvolvimentos do uso da rede para fins políticos. Eu não concordo com Castells porque é um facto que o futuro dos governos está aqui. Os serviços governamentais na internet são tão bons que no Canadá os eleitos estão a tornar-se menos relevantes. E porquê? Porque as pessoas contactam os serviços sem passarem por eles.

Devem as instituições democráticas redesenhar-se para se adaptarem a estas mudanças?

Julgo que sim. O "blogging" é uma tentativa de utilização democrática da Internet. Porque pelo menos permite que as pessoas expressem os seus interesses, e se concentrem nos problemas locais. Vão surgir cada vez mais blogs, e outras coisas se vão desenvolver que permitirão este tipo de expressão. Eu diria que é uma aposta segura predizer-se que este media vai transportar em si a democracia, não destruí-la. A democracia foi ameaçada pela rádio, que quase a destruiu. A televisão foi um regresso à democracia, ainda que indirecta. A TV não é um media fascista, a rádio é. A TV é uma sedução, é como uma mulher. É uma mãe, não um pai.

Muitos governos começam a dar-nos a hipótese de interagirmos "online" com as instituições do Estado. Podemos falar de um "download" de poder, em contraponto à burocracia que o mantinha do lado de lá dos balcões dos serviços públicos?

A burocracia é um mecanismo de diminuição da velocidade de decisão. A electricidade é um mecanismo acelerador. São opostos, e por isso os burocratas estão preocupados com a internet, claro. A questão é que há sempre algo para os burocratas fazerem. Mesmo que uma tarefa seja acelerada há sempre muito mais coisas sobre as quais eles se podem "sentar". Eu considero que faz parte da "cultura corporativa" dos governos pôr travão nos processos. E isto não é algo que vai passar já. A electricidade vai contra esta tendência. E eu penso que alguns novos governos, grupos novos, grupos de interesse estão a esforçar-se por ultrapassar o lento processamento da burocracia.

Recorrendo a um neologismo criado por Alvin Toffler, no seu trabalho define os utilizadores da internet como "prosumers". Pode explicar este conceito?

Eu acredito que é tendência de todos os sistemas interactivos requerer a participação do utilizador para se materializarem. Há um aspecto de co-produção. Mas há também algo de "consumo" de recursos que estão disponíveis e que não foste tu que os criaste. "Prosumer" combina muito bem a figura do "interacter", aquele que interage, com o a do tradicional "comprador". É a co-criação de trabalho. No fundo é aquilo que eu defino como a partilha de "significados" com o ecrã.


"As Pessoas Precisam de Se Relacionar com a Palavra em Papel"
Domingo, 13 de Junho de 2004

As árvores continuam em risco. Pelo menos essa é a perspectiva de De Kerckhove, para quem a palavra fixada em papel é algo de "criticamente importante para a projecção da escrita". Razão pela qual, acredita, as pessoas "vão continuar a ler jornais".

Para aqueles que designa como screenagers...

Devo dizer que eu não inventei essa expressão, ela é de Douglas Rushkov...

...Sim, mas também a usa para designar a nova geração que cresceu em frente a um ecrã. Haverá ainda para estes uma função para as palavras escritas em papel, seja ele um jornal, um anúncio, ou uma carta de amor?

Sabe que mais? Sim. E é melhor que haja. Porque é através da leitura e da escrita e da apropriação da linguagem numa base pessoal que desenvolvemos uma identidade privada. Podes fazê-lo "on-line", podes fazê-lo no ecrã, mas quanto mais flexível é a linguagem no ecrã, mais poder tem sobre ti. Não terá todo o poder mas toma o controlo. Eu acredito que a tecnologia da palavra fixa, seja ela o jornal ou o livro, é algo de criticamente importante na projecção da escrita. Acredito que as pessoas a pouco e pouco vão reparar nisto. Elas vão ler não pelo conteúdo, mas pela prática que a leitura lhes dá. Nunca esquecerei que uma vez em que passei duas semanas num barco e me esqueci de levar livros, quando regressei, no avião, apanhei-me a ler todos os manuais que encontrava. Tomei consciência que não estava a ler nada, estava apenas a processar letras. Isso acontece. Conheço pessoas que não conseguem dormir se não lerem um pouco, mesmo que nem se lembrem do conteúdo do que leram. Pessoas que lêem dez vezes o mesmo livro. Porque precisam de ler. Precisam de se relacionar com a palavra fixada em papel, de uma maneira que não se consegue fazer com o ecrã, com o "sms". Eu tenho a certeza que as pessoas vão continuar a ler jornais...

Ainda que num qualquer formato digital de papel?

Eu não sei como vai ser isso do papel digital. Estou muito surpreendido pelo facto de o "e-book" não ter ido muito longe. E claro, o verdadeiro "e-book", que é o CD-Rom, também não foi a lado nenhum. Aquilo que está a chegar a algum lado, pelo facto de transportar tanta informação, numa qualidade muito elevada, é o DVD. Está a funcionar porque as pessoas gostam. Como o MP3, claro. Há alguns produtos digitais que estão a chegar a algum lado, mas quando se pergunta se algo de radicalmente novo aconteceu ao livro ou à escrita, a resposta é não. Por isso, penso que as nossas árvores continuam em risco.

Jim Chisholm, director do projecto "Shaping the future of the newspapers", defendeu recentemente que na próxima década a resposta à questão "O que é notícia?" será algo que se ligue às prioridades pessoais de cada leitor. Concorda?

Negroponte disse isso há dez anos. Ainda antes do aparecimento das rádios e jornais 'on-line', ele disse que o futuro dos noticiários seria tu seres acordado pelo teu rádio/despertador com a abertura "o teu avião está atrasado, esta manhã". As notícias seriam tão personalizadas que a prioridade seria dada àquilo que tivesse a ver contigo, e só depois saberíamos que Bush conseguiu um acordo para o Iraque. Ele estava errado quanto a isso. Fez outra grande previsão, a de que todos os meios de comunicação de massas passariam a estar 'on-line', e de que todo o contacto instantâneo seria feito sem fios. Ele estava parcialmente certo, nesta. Mas foram grandes previsões porque fizeram as pessoas reflectir na direcção certa. Ele estava errado quanto às notícias personalizadas, porque eu acredito que os media noticiosos tem algo de comum com a rádio e a televisão. Fornecem-nos uma ideia de território comum, que permanece como aspecto essencial da pertença numa sociedade. As pessoas vão continuar a ler e a ver as mesmas coisas, simplesmente não farão apenas isso.

Mas precisam disso...

...As pessoas vêem televisão porque necessitam de se ligar à consciência colectiva. E esta não é uma fantasia ou um luxo. É algo que nós precisamos. E acredito que os jornais fornecem-na. Não tenho receio pelos jornais ou pelos livros.

"Algumas Pessoas Sentem-se Melhor Ligadas por E-mail do Que por Telefone"
Domingo, 13 de Junho de 2004

Na era da "inteligência connectiva", a possibilidade de comunicarmos com os outros sem imposições geográficas ou temporais está a mudar a nossa forma de nos relacionarmos. E De Kerckhove pretende levar essa mudança mais longe, criando a praça da aldeia global, um ponto de encontro virtual, em homenagem ao seu mentor, Marshall McLuhan, e a Marconi.

Como é que a "inteligência conectiva", de que nos fala no seu trabalho, muda as nossas relações com as outras pessoas?

Permite-nos confiar melhor num contacto que é curto mas intenso. Estende o contacto para além do momento em que ele acontece, porque sabemos que o podemos repetir mesmo que o outro viva algures noutro local do mundo. Eu divirto-me imenso. De cada vez que troco "e-mails" com alguém, eu construo fantasias à volta do nome - e não estou a falar de fantasias eróticas - imagino como é que ele ou ela se parecem. Eu trabalhei sete anos com o mesmo agente de viagens até o conhecer, e até hoje eu atribuo-lhe a cara que imaginava, mesmo sabendo já que não é a dele. Isso é muito interessante. Isto depende das pessoas, mas eu sinto que algumas se sentem melhor quando ligadas por e-mail do que por telefone. Noutras culturas, isso é impossível. Os porto-riquenhos não dão más notícias pelo telefone. Vão a casa. Não é porque o considerem má educação. É simplesmente inumano.

Pode esta mudança de comportamentos, esta nova era da comunicação, transformar, ou simplesmente mudar a nossa ideia de geografia, que concebe o mundo como um lugar de cidades, de regiões e de países?

Sim. Eu tenho um projecto de alteração da geografia física. Chama-se "Global Arquitecture". Seria trabalhoso concretizar o que é, aqui, mas uma das suas componentes é a praça da aldeia global. Imagine uma "web-cam" para um público alargado. Um parque público onde as pessoas se encontram, e que está permanente disponível, mas em que as pessoas que aqui se encontram estão a milhares de quilómetros de distância umas das outras. Eu considero isto extremamente excitante. É a possibilidade de expandirmos o nosso alcance, ultrapassando oceanos e fusos horários, e interligarmos lugares virtualmente, como extensões da realidade mental. "Global Village Square" é um tributo a Marshall McLuhan e Marconi, começará por ligar Toronto, Montreal, Nápoles e Milão. Eu sei que há pessoas na Universidade de Aveiro que estarão interessadas neste projecto, mas essa colaboração ainda não foi materializada.

O Herdeiro de McLuhan
Domingo, 13 de Junho de 2004

O trabalho conjunto que Derrick De Kerckhove desenvolveu com Marshall McLuhan durante a década de setenta, até à morte do autor de "Understanding Media", em 1980, marcou profundamente este canadiano doutorado em Língua e Literatura Francesa, que partiu de obras como "The Alphabet and the Brain", para uma insistente e frutífera abordagem sobre os efeitos dos meios de comunicação na nossa relação com o nosso corpo e mente, com os outros, e, mais recentemente, com o tempo e o espaço. Reflexões presentes ao longo de duas décadas de publicações, que incluem títulos como "La civilisation vidéo-chrétienne", "the Skin of Culture", "Connected Intelligence" (os dois últimos com tradução portuguesa) e "The Architecture of Intelligence". Mais recentemente editou "McLuhan for Managers", uma colaboração com o seu colega Mark Federman. Pelo meio, De Kerkhove tem-se afirmado como pedagogo, e ensaiado as potencialidades da internet na co-produção de trabalho "on-line", nomeadamente na escola. Está empenhado no desenvolvimento de uma plataforma informática, o "sessionstom", que tem vindo a ser experimentada em França Itália e Canadá. Chegou a avançar com um projecto de ligação entre escolas na Madeira, há alguns anos, mas não o desenvolveu, alegadamente por falta de apoio do Governo Regional.


13.6.04

 

Morto pela Morte Inexorável e Morto pela Campanha Evitável

Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Quinta-feira, 10 de Junho de 2004

Anteontem tinha começado a escrever uma nota para o Abrupto sobre a inutilidade e o arcaísmo deste tipo de campanhas eleitorais, que ia colocar hoje em linha. Infelizmente, a pior das confirmações do que lá escrevia deu-se com a morte súbita de Sousa Franco, morto pela Morte, mas certamente auxiliada, na sua tarefa de ceifeira inexorável, pela forma absurda como se continua a fazer campanha em Portugal.

O absurdo destas campanhas eleitorais é total. Exaustivas, cansativas, feitas sem qualquer consideração pelos candidatos que andam, como sonâmbulos, de rua em rua, de asilos de velhinhos para mercados, a ter que entrar nesta loja comercial porque o sr. X é um "apoiante nosso de há muitos anos", ou a tomar um café, o décimo milionésimo, no café do sr. Silva, que é "dos nossos". A julgar pelo espelho das campanhas eleitorais, os grupos sociais e profissionais mais importantes para o voto em Portugal são os velhos dos lares, os doentes dos hospitais, os feirantes, as peixeiras e as donas de casa a fazer compras. O Portugal que se procura é constituído, em primeiro lugar, pelas audiências partidárias, presentes em jantares e comícios, depois pelos "populares" que frequentam sítios onde há muitos "populares", os mercados, as feiras e as ruas centrais das cidades.

Apesar de, há muito, todos suspeitarem que este tipo de campanhas não acrescentam um único voto, e muito menos mudam algum, a verdade é que tudo continua sempre na mesma. Há uma enorme resistência à mudança e convém perceber porquê. O único objectivo destas campanhas é esfregar o ego das estruturas partidárias que querem andar a passear os candidatos, e a mostrar a sua importância. Duvido que se ganhe um voto em tais exercícios e, para além disso, este tipo de campanha não deixa verdadeiro espaço a qualquer outra coisa distinta.

Se as campanhas fossem diferentes, com a ênfase na utilização dos meios de comunicação social, nacionais e locais, e no debate propriamente político das diferenças entre candidaturas, em locais mais próprios do que as feiras, as estruturas partidárias sentir-se-iam minimizadas e como peixe fora de água. A prazo, para manterem um papel, teriam elas próprias que mudar. Mudar o tipo de actividades que conduzem, mudar o perfil dos seus dirigentes. Evoluir de máquinas eleitorais arcaicas, funcionando como "sindicatos" junto do próprio partido e junto do poder autárquico, e nacional, a passar a exercer uma função de pedagogia cívica que é suposto legitimar os partidos para além do exercício do poder. Não só, mas também.

Na última campanha eleitoral que fiz para o PE, vivi dentro de um carro que percorreu cerca de 20.000 quilómetros em 15 dias, num país pequeno como Portugal. Andava de almoço para jantar, almoços e jantares em que havia enorme renitência em que se falasse no princípio e se tinha que esperar horas, em ambientes superaquecidos, e com refeições pesadas à portuguesa. Lá no fim, falava uma longa série de oradores, o presidente da jota local, o presidente da concelhia, o mandatário local, algum convidado especial e o candidato. Às vezes, saía-se a correr para ir a outro jantar fazer a mesma coisa. Nos intervalos, visitavam-se as feiras e os mercados obrigatórios, e uma longa série de visitas a instituições empresariais, a "lobbies" locais, a eventos que coincidem com a campanha e que têm "gente". Foi assim que assisti a um ou dois jogos de futebol e até a uma corrida de cavalos.

O dilema é sempre o mesmo: se não se faz, dizem-nos, é uma desgraça eleitoral, os potenciais visitados ficam zangados e isso é "muito mau para o partido". Na última campanha, recusei-me a visitar asilos, lares da terceira idade e hospitais, mas havia protestos contra essa decisão e sub-repticiamente lá apareciam no programa as "instituições de solidariedade social muito importantes", que depois se percebia serem dirigidas por um notável do PSD. Sendo assim as campanhas, a ninguém espanta o prazer que tive, num dia, em fazer uma pequena viagem de barco artesanal, numa "photo opportunity" é certo, mas que tinha a vantagem de ter o ar do mar e o vento salgado e, apesar de tudo, alguma solidão para pensar.

Estas campanhas são também caras porque são precisas as "ofertas" para distribuir na rua, e a elas se sobrepõe, normalmente a nível nacional, uma dispendiosa campanha de "marketing" e publicidade. Os materiais de campanha são exigidos veementemente porque facilitam um "trade-off" nas feiras e mercados entre candidatos e "populares". Os acompanhantes ficam muito inseguros, se não tiverem nada para dar. Os "populares", por sua vez, também esperam receber alguma coisa: "Não tem aí uma canetinha para o meu neto?"

Os jornalistas gozam com estas campanhas, mas são instrumentais em mantê-las, sendo, como quase sempre são, bastiões do conservadorismo. Se não se ia "para a rua", distribuir canetas e autocolantes, era porque se era elitista, ou se estava mal com o "povo", ou "passava-se mal". Os jornalistas da televisão necessitam, como de pão para a boca, da cor da rua, do eterno beijo, do dichote antipolíticos, do ocasional "vai trabalhar, malandro", do encontro entre candidatos diferentes numa mesma feira (um "must" televisivo que dá sempre), do "soundbite" diário, recolhido à volta de uma qualquer peripécia irrelevante.

*

Ninguém sabe quando e porquê a Morte vem, mas que o seu trabalho sinistro foi auxiliado, não me sobram dúvidas. Sousa Franco dedicou-se completamente ao combate político das europeias e fez o que lhe foi pedido pelo partido de forma generosa até ao limite das suas forças. Tinha que estar cansado, muito cansado. Se a sua morte puder contribuir para se pensar de novo as formas de fazer política em Portugal, será mais uma das contribuições cívicas que deu ao país na sua carreira pública. n Vice-presidente do Parlamento Europeu

NOTA: o artigo que tinha previsto para hoje era a conclusão da série sobre as democracias e a guerra. Será publicado só na próxima semana, por razões óbvias.

5.6.04

 

Armed man goes on bulldozer rampage

GRANBY, Colorado (AP) -- A man barricaded inside a fortified bulldozer went on a rampage Friday, firing shots and knocking down buildings as he plowed through the streets, witnesses said.

It was not immediately known whether anyone had been injured.

"He's got gun turrets," witness Scott Schaffer told KUSA-TV. Another resident, Judy Craig, told the station she heard heavy damage was done to the town library and city hall.

State Patrol Maj. Jim Wolfinbarger said officers told him the driver had aimed his weapon at propane tanks. Gov. Bill Owens alerted the National Guard and was prepared to send troops to the town if requested, but local authorities had not asked for that help, Owens spokesman Dan Hopkins said.

Store owner William Hertel said a man he did not know drove by his business in the bulldozer at mid-afternoon. He said the machine took out a wall of the library and part of a new bank building.

He took out the trees and light pole in front of Hertel's store driving back and forth through the town, Hertel said.

"I was up on the roof when he came by. I got down and got my wife and kids out of the back of the building," Hertel told The Associated Press. He said he had heard numerous gun shots.

Lurlene Curran, the Grand County manager, said to her knowledge no one had been hurt. She said at least five buildings had been damaged.

"The piece of equipment is so big it's hard to stop," she said. "We're doing everything we can to stop this chaos."

Granby, a town of about 2,200 at nearly 8,000 feet, is about 50 miles west of Denver.

The bulldozer knocked out natural gas service to City Hall and a cement plant, Xcel Energy spokesman Mark Stutz. He said one truck and a wall of the utility's service center had been damaged.

The scene was reminiscent of a 1998 rampage in Alma, another town in the Colorado Rockies. Authorities said Tom Leask shot a man to death, then used a town-owned front-end loader to heavily damage the town's post office, fire department, water department and town hall.

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