Textos da Internet

7.1.10

 

TORTO

PEDRO MEXIA

Uma amiga de longa data pediu-me que lhe corrigisse as vírgulas na tese de doutoramento. Com certeza que sim. Atirei-me, pois, às vírgulas. Mas confesso que não estava preparado. É que a tese - não sei como dizer isto debruça-se sobre a problemática da cessão dos créditos. Confortavelmente esticado na minha caminha, de lápis na mão, dei por mim teletransportado ou, se preferirem, transplantado para a década de noventa do século passado.
Essa tarde recordou-me outras tardes, árduas e infindáveis, há 12 ou 13 anos. Era, nessa época, aluno do curso de Direito. Saquei o canudo em 1995. E, depois disso, tenho mantido o silêncio. Mas agora, passado o período de nojo, aproveito para deixar aos meus leitores dois ou três avisos sobre o dito curso.
Pois bem: trata-se da mais inconcebível, árida, macilenta e desprezível das criações humanas. Reparem que nem sequer me refiro ao Direito propriamente dito: sobre essa matéria a conivência dos juristas com tiranias sortidas e as obras completas do Kafka chegam e sobram. Quero agora evocar apenas o curso, aqules cinco penosos anos de colónia penal. Convém aliás explicar que o curso de Direito tem cinco anos não por exigências curriculares mas como forma de homenagem aos planos quinquenais soviéticos. A lógica de opressão, de dirigismo e de extermínio é a mesmíssima.
Não vou agora aqui sumariar a minha experiência estudantil, a qual, aliás, foi aprazível a princípio e se tornou depois indiferente. Mas recordo-me bem do momento de viragem. Em pleno terceiro ano, o meu descontentamento veio ao de cima violentamente, como um almoço mal digerido. Estava numa aula de Direitos Reais. Estava aborrecido. Estava com sono. Escrevinhava coisas num caderno. E em cima do estrado, o monocórdico mestre dissertava sobre a «servidão de estilicídio». Eu explico: trata-se de garantir o escoamento das águas quando um prédio vizinho não está a mais de cinco decímetros do outro.
A minha vaga insatisfação com o curso tornou-se, nesse segundo, algo de muito mais agudo, como uma úlcera que rebenta. Eu não sabia o que queria fazer da minha vida; mas não era certamente estudar o escoamento de águas e a distância entre os prédios. Que se lixasse o estilicídio. Eu queria distância era do curso. Porque essa era a nossa faina. Engolíamos, como óleo de rícino, noções assim intragáveis durante dez infindáveis semestres. Não apenas a acção de despejo, o IRS ou a recorribilidade do acto administrativo, assuntos minimamente perceptíveis, mas muitas e muitas bizarrias. A Constituição da Costa Rica. O inadimplemento culposo. A impugnação pauliana. A venda a retro. A ineptidão da petição inicial. As prescrições presuntivas. A substituição quase-pupilar. O fideicomisso. O anatocismo. A enfiteuse. Os vícios redibitórios. Os impedimentos dirimentes relativos. O contrato sinalagmático. O registo das sociedades em comandita. O benefício da excussão. E, claro, a cessão de créditos. É preciso ter um interesse desmesurado acerca das regras que regulam uma sociedade, em todos os seus nauseabundos detalhes, para estudar estas salgalhadas. E para aguentar os infindáveis casos entre o "senhor A" e o "senhor B", que vendiam um ao outro casas, se processavam, pediam licenças de uso e porte de arma, deixavam violas de gamba em usufruto, e por aí em diante. Por vezes iam mais longe: o usufruto era em Amesterdão, a arma de Poiares da Beira, o processo na Califórnia e a casa nas Comores. Quid juris?, perguntavam, sacanas, os lentes. Não sabíamos nem queríamos saber. Por esta altura, todos nós queríamos mais era que o senhor A e o senhor B se quilhassem.Manhãs e tardes a fio assisti a isto. Noites e noites a fio estudei isto. Vou ter olheiras para sempre por causa disto. Arruinei a minha caligrafia por causa disto. Sofri horrores de nervos e bexiga por causa disto.
Aguentei o prof. Soares Martinez por causa disto. Comprei e sublinhei de capa a capa catrapácios de setecentas páginas sobre a pensão de alimentos por causa disto. Por isso vos digo, ó finalistas do liceu: não se metam nisso. Parafraseando Jaques Séguéla, diria que há actividades bem mais decentes. Como pianista num bordel.

18.11.08

 

Robert McKee: Os argumentistas devem algo novo ao público

13.11.2008, Joana Amaral Cardoso

Confirma-se: Hollywood sofre uma crise de conteúdos, vivemos a era dourada da ficção televisiva e Casablanca é ainda o melhor filme de sempre. O que não se sabia é que se Call Girl fosse feito em Hollywood Angelina Jolie era protagonista. Diz Robert McKee, guru do guionismo

Robert McKee, figura maior da técnica de escrita de argumentos norte-americana, viu quatro filmes portugueses antes de chegar a Lisboa, onde está para, pela primeira vez, começar amanhã a leccionar o seu seminário Story. Serão três dias na Escola Superior de Comunicação Social a falar sobre guiões e são mais ou menos os mesmos conselhos que dá desde 1983, depois de um convite do produtor independente Jeff Dowd (que inspirou os irmãos Coen para criar a personagem de Dude Lebowski em O Grande Lebowski) para tornar a sua aula universitária numa prédica itinerante.
A palestra, organizada pela Mixreel, tem estatuto de culto e já teve como alunos David Bowie, John Cleese, Diane Keaton, Lawrence Kasdan, Joel Schumacher, Peter Jackson, Eddie Izzard, Kirk Douglas, Gloria Steinem, equipas inteiras da Pixar ou da Miramax, entre muitos outros. Sentado num hotel no Chiado, fala de cinema português e não aceita os louros pelos prémios alheios. Mas fica lisonjeado com o reconhecimento de ex-alunos, dos quais 27 têm Óscares de Melhor Argumento e mais de 120 têm Emmys. Akiva Goldsman, que recebeu o Óscar por Uma Mente Brilhante (2002) considera-se "um crente". "Ele diz que lhe salvei a vida", recorda McKee, que acha que foi o talento que salvou Goldsman e não aquele seminário.
Espera encontrar mais de 200 pessoas em Portugal (ainda há lugares livres, a 550 euros por cabeça, menos cem euros para estudantes). Inscreveram-se sobretudo jornalistas, criativos de publicidade e equipas de argumentistas, além de alguns realizadores e vão ouvir "uma aula sobre o processo de escrita de dentro para fora, depois de fora para dentro", explicou ao P2. E, ao terceiro dia, falará de géneros, de equilíbrio, cenas, método e de Casablanca. Ah, e sobre adaptação.
(In)adaptado
"Adoro o Charlie Kaufman e ele sempre usou gimmicks (truques)" para fazer avançar as suas histórias, diz, numa resposta à pergunta sobre como as séries de televisão que hoje muito aprecia usam esses esquemas para criar histórias. A porta na cabeça de John Malkovich, a amnésia do casal de O Despertar da Mente, os gémeos argumentistas de Inadaptado. No filme, um deles pede ajuda a McKee, interpretado por Brian Cox, e recorre ao seminário Story para resolver os problemas do seu rascunho.
"Foi um processo colaborativo, não só na construção da minha personagem", recorda McKee, mas também na assistência médica ao guião. Era quase irresistível que McKee olhasse para um argumento e não o escrutinasse. "Houve algumas mudanças no terceiro acto, tinha problemas", resume.
Médico de argumentos, professor de escrita criativa, autor de livros sobre guiões, personagem de Hollywood. Em suma, McKee já tem o seu lugar na cultura popular. "As coisas aconteceram", comenta. Aos 67 anos, continua a ver filmes compulsivamente (os últimos favoritos são o sul-coreano Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera e o sueco Let the Right One In) e só resiste a olhar com raio-X para o filme, à procura do seu esqueleto "se o filme for bom. Torno-me numa criança". Quando são maus, "ao menos aproveito o tempo a analisar tudo".
Há anos, viu dois filmes de Manoel de Oliveira e agora assistiu a Alice (Marco Martins, 2005), Call Girl (António-Pedro Vasconselos, 2007), Juventude em Marcha (Pedro Costa, 2006) e Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes, 2008). Achou que o realizador e argumentista de Call Girl deviam ter escolhido o ponto de vista único da call girl e esquecido os outros quatro (e preconizou que o filme em versão americana teria Angelina Jolie como protagonista) e nos restantes encontrou desejo de aventura e esforço minimalista, mas... "não são muito hábeis". "Se se quer usar uma técnica minimal, tem de haver a certeza de que há um conteúdo tremendo, como no Brokeback Mountain" (ou O Amor é um Lugar Estranho, Morrer em Las Vegas, Confissões de Schmidt, enuncia) e só o encontrou em Alice.
"Como argumentistas, temos uma obrigação para com o público. Pedimos-lhe um grande bocado da sua vida - três horas. É muito, posso jogar uma partida de golfe em três horas. Nesse convite há uma promessa de recompensa. Dar-lhe-ei algo que não tinha antes, fazê-lo pensar, chorar, rir. Vou enriquecer a sua humanidade".
Como um novelo de escrita e condensação do zeitgeist audiovisual, Robert McKee desenrola a sua teoria de que a base do cinema, da ficção televisiva, é o argumento. E ele não tem lugar em Hollywood, "tecnicamente soberbo, mas com um problema de conteúdo. Os filmes são mais uma versão de como o bom vence o mau, efeitos especiais ou comédias mal-educadas (que são divertidas). Não é Beckett." Por isso, nas viagens quer "que o cinema internacional seja maravilhoso". O problema é que as ideias, o rasgo criativo, o espírito político estão na Europa, por exemplo, mas McKee defende que os europeus não dominam a forma, noção base que "está lá para nos levar em profundidade". Já "Hollywood sabe como contar uma história"... Mesmo que seja má. O resultado, esmiúça, é que agora temos uma "retro-garde" em vez de uma avant-garde, "com os jovens a regressar às fórmulas do cinema dos anos 1960". McKee postula que a única maneira de um escritor "se libertar é dominar a forma". Até lá, vai sempre copiar alguém.
A noção de forma, bem como a de "escrever sobre a vida" e a verdade, são basilares nos seminários e livros de McKee. "Viajo pelo mundo, as culturas mudam, as línguas mudam, o que não muda é a vida. E a vida é lixada. E o mais difícil é tirar sentido da vida de forma bela numa história. Porque a vida é tão difícil de expressar de forma significativa, as pessoas recorrem a fórmulas e acabam com clichés", ao invés de serem um verdadeiro "autor". Aquele que "começa com uma visão original, com uma página vazia, cria um mundo, povoa-o com personagens e conta a história. Esse é o único acto original de criatividade. Depois disso, toda a gente é um artista interpretativo".
Por isso mesmo, não contesta a teoria do "cinema de autor", como já se disse sobre ele, mas refuta a ideia de que a autoria seja só do realizador. "Há um caminho natural quando os escritores se tornam realizadores, como o Truffaut, Bergman, Oliver Stone, Woody Allen, Almodóvar, Lawrence Kasdan", enumera. Aí, o realizador termina a obra que começou na página. Os outros, acha McKee, "ou canibalizam romances ou arranjam um argumentista, pagam-lhe pouco para ter uma ideia e depois reescrevem-na".
O filme perfeito
O orador americano, eloquente e um pouco duro no trato, rasga um sorriso quando se fala do seu filme preferido, que já viu centenas de vezes. Casablanca é a obra-prima para McKee, e é analisado em todos os seus seminários. "É um clássico na verdadeira definição, uma obra de arte que é infinitamente revivida com prazer". Dizer que o filme favorito é Casablanca é o maior dos clichés. Será o apelo transversal de Casablanca um dos segredos do seu sucesso? "Pode ser. Tem seis histórias a decorrer. E é maravilhosamente engraçado. O espírito é tão cínico!" Sucede-se uma série de citações de falas do filme e a recordação de que há 30 anos vê diferentes públicos a reagir-lhe. "Adivinhem: está cada vez mais engraçado! As mesmas falas causam gargalhadas que antes não provocavam. O mundo político finalmente acertou o passo com o Casablanca", diz, elogiando os irmãos Epstein, autores do argumento.
Lança o olhar clínico sobre Charlie Kaufman para dizer que ele "não chega à tal profundidade", que hoje se desenvolve mais em televisão. Agora "tenho oito séries para gravar sempre e não há tempo suficiente numa semana para ver toda a qualidade". Há quatro anos, falava aos alunos de uma crise total na ficção que passava pela televisão repleta de reality-shows. Hoje, tece elogios aos Sopranos e Sete Palmos de Terra, segue a "estranha e maravilhosa coisa" que é Calma, Larry, ri-se com Rockfeller 30 e reforça que "os melhores escritores de Hollywood foram para a televisão porque lá têm mais poder", liberdade e tempo. Gosta desse formato que primeiro se estranha e depois se entranha que é o mockumentary (O Escritório, Extras), mas nota-se o desconforto perante o toque insistente dos telemóveis ou a presença de computadores portáteis. E não tem grande respeito pela vaga faça-você-mesmo da cultura YouTube.
McKee também fez a sua perninha em televisão, escrevendo argumentos para Columbo, Kojak e Spencer, For Hire. "Foi como roubar dinheiro", diz sorridente. Pediam-lhe uma ideia-chave e um argumento e depois os restantes escritores trabalhavam-no. Já passou por todas as áreas da ficção mas a sua obra é sobretudo teórica, sendo o mais conhecido o premiado livro Story (35ª edição nos EUA). Tem um romance em permanente desenvolvimento - Fiction - e dois argumentos de cinema que este fim-de-semana serão lidos por produtores (bate na madeira, cauteloso).

5.10.08

 

Morreu Dinis Machado, autor do primeiro best-seller português depois do 25 de Abril

04.10.2008, Isabel Coutinho

Jornalista, escritor, editor, amante da BD e do policial e crítico de cinema, Dinis Machado teve em O Que Diz Molero a sua obra maior, considerada um tratado sobre o que é ser português

O escritor Dinis Machado e também jornalista, editor e crítico de ci-
nema morreu ontem, em Lisboa, aos 78 anos, de cancro do pulmão. "Adeus, Dinis. Até amanhã, entre fumo e histórias - as de futebol e andorinhas, as que nos enchiam de riso e as que havemos de contar ainda." Estas são as palavras de despedida que lhe dedica o escritor Francisco José Viegas, director da revista Ler e cultor do género policial e também seu amigo.
O funeral realiza-se hoje, às 16h, no Cemitério do Alto de São João e o corpo está desde ontem em câmara- -ardente na Igreja da Encarnação, ao Chiado, em Lisboa.
Dinis Machado começou a escrever aos 17 anos (passou por vários jor-
nais, entre os quais A Bola, o Diário Ilustrado e o Diário de Lisboa) e é o autor do famoso livro O Que Diz Molero, publicado pela Bertrand em 1977 e considerado o primeiro best-seller da ficção portuguesa depois do 25 de Abril. Actualmente com 31 edições, tem tido sucessivas reedições e está traduzido para várias línguas. "É um livro que não envelhece", nas palavras de Viegas; "uma lição de mestre", nas palavras do escritor e jornalista Rui Cardoso Martins. "Um dos livros fundamentais da literatura deste século", nas palavras da cronista Clara Ferreira Alves, mas também a opinião de Assis Pacheco, Cardoso Pires e Lobo Antunes. Com o pseudónimo de Dennis McShade inventou o assassino Peter Maynard, a personagem que aparece nos romances policiais que escreveu entre 1967 e 1968.

O choque de Piedade
Uma das primeiras pessoas a ler O Que Diz Molero foi Maria da Piedade Ferreira, actual editora da Oceanos e que o editou na altura na Bertrand. Quando leu o livro pensou: "Hei-de edi-
tar este livro, nem que seja despedida. A editora explicou ao PÚBLICO que o livro vendeu na altura "mais de 100 mil exemplares, o que era uma coisa inaudita, só Fernando Namora vendia isso, mas ao longo de muitos meses". A primeira crítica ao livro foi feita por Luiz Pacheco, e a partir daí foi uma bola de neve. "Descobri um autor", escreveu Pacheco na altura. Piedade conheceu Dinis Machado na editora Íbis, onde ele editava a revista Tintin e a Spirou e também livros policiais e de cowboys que ela traduzia. Depois a Bertrand comprou a Íbis e eles continuaram a trabalhar na mesma sala durante mais de dez anos.
Na última revista Ler, Maria da Piedade já contou que no início Dinis Machado não falava desse livro que andava a escrever (demorou dois anos), mas mais tarde quis saber a sua opinião. Quando o leu "foi um cho-
que", escreveu. "Um choque primeiro para mim, quando o li, e depois para o Dinis Machado, quando o sucesso lhe desabou em cima."
O Que Diz Molero foi reeditado em 2007, três décadas depois da sua edição original, por ocasião do 77.º aniversário do autor e foi adaptado ao teatro por José Pedro Gomes e António Feio.
Se há algo sempre presente nas declarações dos que o conheceram é que Dinis Machado era "uma exce-
lente pessoa". Rui Cardoso Martins disse à agência Lusa que nunca conheceu "uma pessoa com tanto talento e tão pouca vaidade". "Acho que era um caso único", frisou.

Filho do Bairro Alto
Nasceu a 21 de Março de 1930, em Lisboa, e cresceu no Bairro Alto, onde viveu até aos 34 anos.
O ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, seu amigo, revelou à Lusa que era "um homem com uma sabedoria de vida extraordinária" e que "gostava muito da vida e dos prazeres da vida". "Um escritor que soube encarnar o que são as questões da vida, da vida de um bairro, da vida do Bairro Alto, da vida popular, de uma festa popular, da experiência, da aventura, de tudo aquilo, como um dia disse Luiz Pacheco, numa espécie de cavalgada furiosa de episódios, com uma extraordinária proximidade do que é a vida", acrescentou.
Talvez isto lhe viesse de seu pai, "um homem muito especial", dono do restaurante do Bairro Alto Farta--Brutos, e "uma curiosa figura lisboeta" que "queria que o filho fosse escritor, fosse tudo o que ele não ti-
nha sido", como já escreveu Clara Ferreira Alves. Era casado com Dulce Cabrita, economista, reformada da Universidade Técnica, intérprete lírica, de quem dizia lhe ter posto ordem na vida.
Escreveu Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Marquez (1984, Bertrand), Reduto Quase Final (1989, Bertrand) e Gráfico de Vendas com Orquídea (1999, Cotovia). A Quetzal (que pertence ao mesmo grupo que a Bertrand) iniciará em breve a reedição da sua obra. Sob o pseudónimo Dennis McShade, escreveu também, entre 1967 e 1968, os romances policiais Mão Direita do Diabo, Requiem para D. Quixote e Mulher e Arma com Guitarra Espanhola que estão agora a ser reeditados pela Assírio & Alvim.
 

Humor na TV em Portugal, agora a sério

05.10.2008, Joana Amaral Cardoso

Zé Carlos chega esta noite, mas os Gato Fedorento duvidam se querem fazer mais televisão após o fim do contrato com a SIC. O humor na TV para além dos quatro felinos estende-se das Produções Fictícias a Vai Tudo Abaixo, passando pelo esclarecimento: a Liga dos Últimos não é um programa de humor

Voltaram os "parvos". Adoram desdramatizar, repetem que só dizem umas parvoíces. Se o discurso dos Gato Fedorento sobre o seu trabalho fosse uma nuvem de palavras (tag cloud) na Internet, parvo e parvoíce seriam algumas das palavras em maior destaque, a negrito autodepreciativo. É como se não quisessem ser levados a sério, mas eles são o caso mais sério de humor televisivo (e não só) dos últimos quatro anos em Portugal.
Zé Carlos é a estreia consensual dos Gato Fedorento na SIC generalista, depois de um incidente com o então director Manuel Fonseca que os levou a sair do canal de Carnaxide em 2005, e o pretexto para se discutir o humor que se faz na televisão portuguesa. Mas o que tem graça - para humoristas, críticos, académicos e espectadores - não é unânime. Tirando os Gato Fedorento.
"Herdeiros" de Herman José, diz Francisco Rui Cádima, professor de Ciências de Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. "Humor inteligente, com graça e é audiovisual", diz o crítico de TV Eduardo Cintra Torres. "Novos, lavadinhos, bonitos e cultos", diz Herman José.
"Neste momento os Gato Fedorento são um fenómeno sociológico: compare-se a promoção dos Gato com a de qualquer outro comediante", sugere Nuno Artur Silva, responsável pelas Produções Fictícias, que agenciam e fazem a produção executiva dos Gato. "Neste momento, eles têm um estatuto de acontecimento. São um fenómeno social e não só um programa de televisão, e isso é excelente."
Bastava olhar em volta na última semana para perceber que eles vinham aí. Parava-se num semáforo no centro de Lisboa, eles estavam lá, no poste do próprio sinal de trânsito, sob o título "Procuram-se". E descritos como... "palermas". Na publicidade, da TV às revistas, também lá estavam. Na última segunda-feira à noite, na SIC, numa antecipação de Zé Carlos, que hoje vai para o ar às 22h20, lá andavam novamente.
Isto fora as promoções à venda do DVD de Diz Que É Uma Espécie de Magazine, as aparições na TV nos anúncios do operador Meo. Até a administração da Portugal Telecom, pela qual deram a cara, atribuiu ao "efeito Gato Fedorento" o primeiro lugar na lista das campanhas com maior reconhecimento de 2007.
A rentrée televisiva, como tem vindo a ser hábito nos últimos anos, esboroou-se e faz-se viver ao longo de semanas e meses. A chegada do colectivo formado por Ricardo Araújo Pereira, Miguel Góis, Tiago Dores e José Diogo Quintela à SIC é mais uma etapa dessa rentrée, talvez a última, e mais uma volta na vida televisiva dos humoristas - que se anuncia curta. Desta vez, vão fazer 26 programas de televisão - o contrato com a SIC dura até ao final de 2009. E Zé Carlos, o que será? Irá beber ao formato que criaram para a RTP, mas também ao que fizeram na SIC Radical?
"Depois do que aconteceu ao Zé Diogo no fim de ano [multado por excesso de álcool ao volante], o programa não vai beber nada", garante Ricardo Araújo Pereira ao P2. "A SIC encomendou-nos uma fantochada parecida com o Diz Que É Uma Espécie de Magazine e é isso que vamos fazer." Uma "fantochada", portanto. Será um programa colado à actualidade e os quatro felinos sátiros sabem que "é muito mais difícil ter uma ideia para abordar determinado tema da actualidade que seja razoavelmente diferente das ideias" que já tiveram. "Mas isso é sempre divertido."
Herman José, para quem escreviam no início da carreira, concorda com a escolha. "É um formato mais realista, porque permite fazer alguns minutos de conversa e de descompressão. Para mim, suicídio humorístico é fazer o que fizemos no Hora H, que são 50 minutos de ficção que ninguém aguenta - nem os espectadores nem quem faz. Vê-se isso com Os Contemporâneos, que estão a fazer um trabalho maravilhoso e que passa relativamente despercebido", opinou ao P2.
O primeiro Zé Carlos foi gravado ontem e terá "um momento que é herdeiro dos Tesourinhos Deprimentes da RTP, mas agora com o arquivo da SIC, que consegue ser tão deprimente quanto o da RTP", prossegue Ricardo Araújo Pereira. O tesouro que vai hoje para o ar "parece ter sido feito, há 15 anos, de propósito para o nosso programa, tendo em conta os nossos protagonistas, que são muito... parvos".
No final de Zé Carlos haverá música, "mas são bandas completamente desconhecidas, escolhidas por nós e que achamos que vão dar muito que falar", provoca o humorista. Armando Teixeira, dos Balla, é o colaborador musical residente para o genérico e não só, e o resto só se poderá ver mesmo na televisão. E depois, como já é natural, na Internet.
Sobreexposição
Depois de quatro anos de popularidade - e alguma intervenção política - crescente, não pensaram em novos formatos. Tiraram a sua licença sabática desde a saída da RTP, mantiveram-se na imprensa, na rádio e na publicidade enquanto a restante comunidade humorística continuava a lavrar terreno televisivo. Os Contemporâneos (RTP1), Fogo Posto (SIC Radical), Vip Manicure (SIC), Telerural (RTP1) nasceram ou deram o salto na sua ausência. Outros projectos, como Vai Tudo Abaixo (SIC Radical) ou o dúbio - já lá iremos - Liga dos Últimos (RTP1 e RTPN) reforçaram o estatuto de culto e ganharam espaço.
Entretanto, e num momento de diversidade de géneros, estilos e protagonistas de humor feito em Portugal na televisão, dos generalistas ao cabo da SIC, Ricardo Araújo Pereira anuncia: "Estou convencido de que a nossa carreira televisiva não dura muito mais. No final do contrato com a SIC tenho dúvidas que assinemos mais um contrato logo a seguir. A fazermos televisão depois disso, será uma coisa esporádica."
Os Gato Fedorento têm noção da exposição a que estão sujeitos e a que se sujeitaram. Em Abril, quando assinaram o contrato com a SIC, Miguel Góis explicava que a sua duração era a ideal para "manter uma frescura criativa". E esta semana Ricardo Araújo Pereira, que se diz "um rústico" porque troca "uma gargalhada por 500 milhões de sorrisos", também reflectia sobre isso. São argumentistas e criativos, não estrelas de TV. "Achamos que a nossa vida não é isto. Essa é a razão principal. Não somos pessoas da televisão. Isto de aparecer foi sempre um acidente, teve o seu tempo e terá a altura em que vai acabar."
De 2004 para cá, de repente estão em todo o lado. "Foi uma experiência mais traumática do que outra coisa", o mediatismo súbito. "E isso só se suporta tendo um grupo inabalável. É fundamental que tenhamos sido amigos antes do que nos aconteceu", diz o humorista sobre o grupo.
Quem muito sabe acerca de sobreexposição é Herman José. Passaram 25 anos sobre a estreia de O Tal Canal, cujo aniversário vai ser assinalado com a edição em DVD (pela Castello Lopes) do programa de Marilu e Nelito. Inaugurou-se ali qualquer coisa. E será que já mudámos de Tal Canal?
Os bonecos, os "cromos" de Herman, vingavam numa época de monoteísmo televisivo - ou se rezava à RTP ou se professava o ascetismo, longe do ecrã. O seu nome era Tony Silva. Ou a cambada alinhava com Estebes, ou a paprika caía no melhor Cozinho para o Povo. "O Tal Canal, que foi uma forte charge à TV da época, assim como a 'novela' Moita Carrasco (Nicolau Breyner), que arrasava o pior da novela brasileira, foram dois momentos ímpares na televisão portuguesa", contextualiza Francisco Rui Cádima. "O contexto e o modo como surgiram criaram imediatas orfandades. Nada podia ser como dantes."
Andar em círculo
Mas o modelo aí nascido já não era original. "Somos todos filhos dos Monty Python", diz Herman José. "A partir daí, acabamos todos por andar em círculos. Todas as anedotas são parecidas, mudam os alentejanos para belgas ou para esquimós." As referências do humor português são sobretudo as anglo-saxónicas, de Benny Hill aos Python, até aos mais recentes mockumentaries (ficção filmada criando a ilusão de que se trata da realidade) de Ricky Gervais e Stephen Merchant - O Escritório, Extras. O outro ramo da árvore genealógica é a tradição portuguesa das anedotas, desde Bocage, dos Parodiantes radiofónicos, do cinema de Vasco Santana e António Silva e do teatro de revista, de que Os Malucos do Riso e Parabéns Camilo (SIC) serão descendentes. E do Brasil de Jô Soares e das novelas, por que não?
Herman não acredita na reinvenção da roda cómica, nem na novidade no humor a não ser na "frescura da pele" de quem o escreve ou interpreta. E confessa que consegue encontrar paralelos até para o trabalho de Jel, aliás Nuno Duarte, aliás Homem da Luta, "nos anos 1920, 30, 40, 50, 60, 70. É novo para as (novas) gerações. As próprias gerações se encarregam de descobrir as coisas pela primeira vez."
Nos últimos tempos, Jel declara que Vai Tudo Abaixo e agora anda pelos EUA a "fazer a luta" na campanha para as presidenciais. O seu humor é (SIC) Radical e autodescrito como punk rock comedy. "A nossa inspiração é a realidade e o Vai Tudo Abaixo é essencialmente um programa anarco-comodista", diz ao P2 por e-mail. Agrada a Eduardo Cintra Torres - "é anarquista, não respeita nada nem ninguém e isso é extremamente salutar no país do respeitinho" - e a Francisco Rui Cádima: "É pena que não trabalhe no âmbito da TV generalista; devia ser presença habitual nos telejornais portugueses... Aquela entrada de megafone no estúdio do Jornal das 9 do Mário Crespo tem quase todos os dias cabimento na nossa burocratizada informação televisiva."
A anarquia da Luta não agrada tanto a Nuno Artur Silva, que, reconhecendo que a sua tradição reality é próxima do que fez Sacha Baron Cohen com Borat (referência que Jel assume em relação a algumas personagens), não lhe acha graça e o descreve como "relativamente conformista", "um falso provocador", embora saúde a sua existência. Esta coisa do "ter graça" não é um lugar estável.
Piada política
Se há coisa que algum humor português tem feito na televisão nos últimos anos é provocar. Sobretudo os políticos e as suas decisões. Quer os Homens da Luta na Universidade Independente, quer a caricatura de Marcelo Rebelo de Sousa e o cartaz pró-imigração dos Gato Fedorento, passando pela escolha de Buraka Obama como solução de Os Contemporâneos para a liderança do PSD, até à Guarda Ambiental Republicana de Fogo Posto. E claro, o Contra-Informação, que agora tem novo reforço: António Posta, edil lisboeta de borracha.
Francisco Rui Cádima recorda que "muitas vezes a 'oposição política' em Portugal passa mais por um sketch humorístico do que por uma prelecção político-televisiva do líder A, B ou C" e diagnostica a falta que o Herman José autor dos anos 1980 faz. No espaço por ele deixado emergiram outros nomes. "Os Gato são fortes na sátira e na crítica política e o Diz Que É Uma Espécie de Magazine acabou por encontrar aí um dos seus mais fortes filões e daí, em boa parte, o sucesso desta série."
Em que terrenos se movem os Gato? Cintra Torres diz que é "dentro do respeitinho". E lá voltam os totós inofensivos que são os (bons) gigantes do humor nacional. "É muito curioso como eles conseguem, ao mesmo tempo, fazer o humor mais brutal com as figuras do poder político, ou da Igreja, ou do Exército, e fazer o discurso dos coitadinhos. Isto faz parte do país do respeitinho. Mas é muito interessante que façam e tenham coragem para fazer os sketches que têm feito."
Uma boa piada - receita indefinida. Ricardo Araújo Pereira atribui à surpresa um papel essencial no resultado do humor. À mistura, Herman José junta "informação, alguma cultura e um forte instinto autocrítico". Mas a graça tem morada incerta. Há quem jure que ela está em Gaia com a Filbox, que produz Telerural, por exemplo, e há quem vá sempre bater à porta da Travessa da Fábrica dos Pentes, em Lisboa, onde vivem as Produções Fictícias (PF).
Numa crónica de Agosto no P2, Eduardo Cintra Torres chamou às PF a "ASAE do humor televisivo", com uma cultura própria que ocupa "bastante o pouco espaço que há para este tipo de televisão". Dos oito programas de humor em exibição (a TVI não tem títulos do género no ar), as PF têm dedo de autoria em dois - Contra-Informação e Os Contemporâneos - e associação indirecta com um, Zé Carlos. Mas são amigas ou parentes afastadas de outros tantos.
É que na era moderna (e pós-moderna, talvez) da televisão em Portugal, no princípio era o Herman e Nuno Artur Silva junto dele. "A empresa começa por causa de mim. Cansei-me de escrever e tive a felicidade de encontrar o Nuno Artur, que tinha a mesma noção anglo-saxónica que eu", recorda Herman José.
A escola Produções Fictícias existe, os factos não permitem argumentos. Da empresa e rede de argumentistas e criativos saíram ou por ela passaram muitos dos humoristas e escritores de humor no activo. Com 15 anos de actividade, "são a universidade do humor em Portugal", define Cádima.
Nuno Artur Silva puxa do álbum de recordações: "Lembro-me de escolher a Maria Rueff num casting, com a Ana Bola ao meu lado. Lembro-me de escolher o Nuno Lopes para o Programa da Maria. Os primeiros textos que a dupla António Feio e José Pedro Gomes fez para TV eram meus. A equipa do Contra-Informação começou comigo, com o Rui Cardoso Martins e José de Pina."
As PF não abdicam do seu lugar na história do humor na televisão, mas rejeitam a ideia de monopólio ou controlo, porque esse cabe aos programadores dos canais. E se Nuno Artur Silva considera que o humor neste momento é a alternativa, em termos de criação ficcional portuguesa para televisão, à telenovela, por ser também mais barata de fazer, Nuno Duarte/Jel, que descreve as PF como "uma cooperativa de humoristas", acha que os meios não ditam a qualidade e identifica um "mercado muito competitivo onde as cooperativas ainda açambarcam".
Humor sem humoristas
O mercado está, então, competitivo. Se medíssemos os sinais vitais do humor televisivo em Portugal, dificilmente seria precisa uma reanimação. "Acho que está em grande forma e os meus programas favoritos são sem dúvida os telejornais", exclama Jel.
Ricardo Araújo Pereira confessa ter pouco tempo para ver televisão. "O Nicolau Breyner tem uma frase espectacular sobre se vê os seus programas: 'Eu para fazer é um preço, para ver é mais caro.' Mas o que posso sublinhar, mesmo vendo muito pouca televisão, é o facto agradável de haver muita variedade, muitos tipos de humor."
E há caras novas. Pedro Alves e João Paulo Rodrigues de Telerural, Gonçalo Waddington ou Carla Vasconcelos, até os Gato, Eduardo Madeira, Bruno Nogueira, Filipe Homem Fonseca, Manuel Marques, Nuno Lopes, Jel, mais os Alcómicos Anónimos, tudo depois de duas décadas de parcas alternativas à "família Herman". "Simultaneamente também temos o Camilo e os Malucos. Óptimo. Há uma vitalidade e uma diversidade no ar que é saudável e que espero que se desenvolva, nomeadamente pelo lado do talk-show político e do humor mais instalado em ficções - sitcoms. Mas se há um género português em que se vê material português original no ar é o humor", remata Nuno Artur Silva.
No ar, além das novidades do ano, há então os cromos repetidos, como Malucos do Riso e Parabéns Camilo (SIC). Os resistentes - Contra-Informação (RTP1). Os fora do baralho - Vai Tudo Abaixo. Os mais ou menos recentemente desaparecidos como Fogo Posto, Programa da Maria, Hora H, Prédio do Vasco, Batanetes, Paraíso Filmes, entre outros. E os híbridos, alguns em exibição, outros já nos arquivos: Eixo do Mal, Prazer dos Diabos, Ainda Bem Que Apareceste, Herman SIC, Perfeito Anormal, Cabaret da Coxa e o caso Liga dos Últimos.
O programa nascido na NTV e que transitou em 2004 para a RTPN é um fenómeno em si. Já vai na quinta temporada e é um caso de sucesso, especialmente massificado desde que partilha a noite de humor na RTP1 com Telerural, e de polémica. O retrato do mundo do futebol amador ou das divisões mais recuadas é também um espelho de um Portugal em que os domingos à tarde se passam em comunidade.
"Há um certo fim do futebol e fim deste pequeno país, dos clubes pequeninos, da lógica da associação recreativa local", descreve Daniel Deusdado, da produtora Farol de Ideias e autor do programa. Às vezes com tinto ou cerveja a mais, com fanatismo em grandes doses. E riso. É uma espécie de programa de humor involuntário.
"A Liga dos Últimos é muito interessante porque é o primeiro exemplo do humor português que dispensa os humoristas, é uma espécie de ângulo sobre a realidade para ver o lado cómico sem quase haver uma intervenção do humorista", elabora Nuno Artur Silva, que acaba por constatar que "não é um programa de humor", mas é, ainda assim, pioneiro. Daniel Deusdado garante que o objectivo não é procurar "situações caricatas", mas que "o país real às vezes faz-nos chorar e às vezes faz-nos rir".
A Liga faz-se de reportagem, por jornalistas devidamente encartados, e com cuidados, diz Deusdado, para encontrar o "equilíbrio entre o que é televisivamente expressivo sem que as coisas ultrapassem determinadas marcas", sendo excluídas as imagens em que claramente a câmara ofusca e ou provoca a pura exibição dos visados ou a "apropriação da sua alma". Na blogosfera, Francisco Rui Cádima tinha já criticado a Liga dos Últimos e reiterou ao P2 que considera o programa "um caso demencial" que se mantém no serviço público de televisão "porque em Portugal a indignação face ao obsceno é coisa rara".
Com centenas de milhares de visualizações no YouTube, é uma fonte de risota perante um país que pode ser identificado com o isolamento rural e cultural. Mas Daniel Deusdado recorda reportagens nos arredores do Porto e até na Pontinha, "a dois quilómetros do Estádio da Luz, e cujo cenário é uma coisa do outro mundo". "Quando começamos a ver o mundo tão filtrado achamos que as pessoas são assim e são ridículas, mas é o nosso olhar que nos leva a pensar isso."
Rir de quê?
No fim de um texto com muito pouca graça, duas perguntas para o humor português.
Se se começa pelos Gato, volte-se a eles para tentar saber o segredo do seu sucesso. "Uma das razões do êxito dos Gatos é que eles controlam o processo do princípio ao fim", atira Nuno Artur Silva, corroborado por Ricardo Araújo Pereira. "Criam personagens, invertem a realidade, mostram o absurdo da realidade tornando-a absurda. E têm graça", o que é do foro do "inexplicável", diz Cintra Torres. "Fizeram omeletas sem ovos, sem pratos, sem restaurante na SIC Radical. E depois conseguiram transpor essa dinâmica para um canal generalista, já com dinheiro", resume Herman. E "são fortes na sátira e na crítica política", destaca Cádima.
E de que se riem os portugueses frente à televisão? Olhando para o que saiu da TV made in Portugal para a rua nos últimos anos, é mais ou menos disto: do Buraka Obama dos Contemporâneos, do Paulo "com tranquilidade" Bento, da Amy Rueff Winehouse, de Araújo Pereira Sócrates, dos saloios do Curral de Moinas que vão ficar sem centro de saúde, do Nelo enclausurado no armário, do piscar de olho ritualizado dos Malucos do Riso, do Granda Nóia, do Zé Manel Taxista, das corridas suicidas dos reformados a atravessar a Rua Morais Soares, das manicures coscuvilheiras, do Capitão Moura e do ki-ki-ki kiriki-kiki dos Homens da Luta. Ou seja, sobretudo de si próprios.

16.9.08

 

Judeus: um povo inventado?

13.09.2008

Shlomo Sand, historiador na Universidade de Telavive, é "um homem muito corajoso". É ele quem se vangloria ao P2, depois de ter publicado um livro (em hebraico e em francês) e um artigo (no Monde Diplomatique) onde conclui, após oito anos de estudos, que "o povo judeu é uma invenção".
Não, escreve Sand, no século XIII a.C. Moisés "nunca poderia ter conduzido os hebreus para fora do Egipto até à Terra Prometida, porque esta era território egípcio". Não, "não há qualquer vestígio de uma revolta de escravos contra o império faraónico ou uma súbita conquista de Canã por estrangeiros". Não, a população do reino de Judá (posterior Judeia) "não fugiu para o exílio no século VI a.C. - só a elite intelectual foi forçada a instalar-se na Babilónia." Não, não houve um segundo êxodo, em 70 d.C., "porque os romanos nunca deportaram populações" - mesmo que quisessem, não tinham logística para expulsões em massa.
"À excepção de alguns prisioneiros feitos escravos, os habitantes da Judeia continuaram a viver nas suas terras, mesmo após a destruição do Segundo Templo. Uns converteram-se ao cristianismo, no século IV, e a maioria abraçou o islão durante a conquista árabe, no século VII." Os primeiros sionistas, enfatiza Sand, até à grande revolta árabe de 1936-39 na Palestina, sabiam que não tinha havido exílio".
Para fazer valer a sua argumentação, Sand cita David Ben-Gurion, o primeiro chefe do Governo de Israel, e Yitzhak Ben-Zvi, o segundo Presidente, asseverando que um e outro "disseram em várias ocasiões, em 1929, que a maioria dos camponeses da Palestina não tem origem nos conquistadores árabes, mas são genuínos descendentes dos habitantes da antiga Judeia".
"É incrível, mas não há nenhum livro, um único, que prove o exílio de 70 d.C., porque ele nunca aconteceu", empolga-se Sand, que pertence ao grupo dos "novos historiadores", como Benny Morris, Avi Shlaim ou Tom Segev. O grande exílio é um mito "originalmente cristão". A ideia era mostrar um castigo divino por os judeus não terem aceitado Jesus como Messias. No século XIX, tornou-se na "base da ideologia sionista, para legitimar a conquista da Palestina".
Os berberes judeus
Se os judeus não foram expulsos e não houve vinte séculos de errância, "o grande impulso para a judaização", no Norte de África, na Europa de Leste ou no Médio Oriente, "foi um processo de conversões", garante Sand. Entre a revolta dos macabeus, em 167 a.C., até à rebelião de Simon bar Kokhba, em 132 d.C., o judaísmo foi "a religião de mais activo proselitismo" - e foram estas "conversões maciças que, sob influência do helenismo, prepararam o terreno para a subsequente disseminação do cristianismo".
Sem as conversões no mundo pagão, avança Sand, "talvez a religião judaica se tivesse tornado completamente marginal, e poderia até nem ter sobrevivido". Mas enquanto o proselitismo durou, mesmo com um abrandamento depois da vitória do cristianismo, no século IV, "os hasmoneanos judeo-helénicos converteram à força os idumeanos [antigos edomitas] do sul da Judeia e os itureanos da Galileia, e incorporaram-nos no povo de Israel". No Curdistão já emergira, no século I d.C., o reino judeu de Adiabene. E, no Iémen, no século V d.C., apareceu "um vigoroso reino judeu em Himyar, cujos descendentes preservaram a sua fé durante a conquista islâmica até aos nossos dias."
Para fundamentar as suas conclusões, Sand cita "obras romanas, gregas e judaicas", incluindo os escritos de Flávio Josefo, Horácio, Séneca, Juvenal e Tácito. "O ponto de partida para a desconstrução dos mitos da historiografia da história dos judeus" foi, porém, a "nova arqueologia", embora ele nos assegure ter "ido mais longe".
Uma das histórias de conversões que Sand relata no seu livro Matai ve'ech humtza há'am hayehudi?, em hebraico, ou Comment le peuple juif fut inventé: De la Bible au sionisme, em francês (em breve haverá também uma versão inglesa) é a da rainha Dahia al-Kahina. Uma orgulhosa judia, ela foi líder de guerreiros berberes nas montanhas de Aurès (actual Argélia) que repeliram o exército muçulmano invasor do Norte de África, no século VII d.C.
"Perguntei a mim próprio como é que vastas comunidades judaicas apareceram em Espanha", contou Sand ao diário israelita Ha'aretz. "Reparei então que Tariq ibn Ziyad, o supremo comandante dos muçulmanos que conquistou Espanha, era berbere e que a maior parte dos seus soldados eram berberes. O reino judeu berbere de Dahia al-Kahina só tinha sido derrotado 15 anos antes. E a verdade é que há numerosas fontes cristãs a dizer que muitos dos conquistadores de Espanha eram judeus convertidos. As raízes profundas da comunidade judaica de Espanha estão nos soldados berberes que se converteram ao judaísmo."
Khazaria e os yiddish
O que Sand descreve como "a mais significativa conversão em massa" terá ocorrido no século VIII, no reino de Khazaria, situado entre os mares Negro e Cáspio, nas estepes ao longo do rio Volga. "A expansão do judaísmo do Cáucaso até à moderna Ucrânia criou uma multiplicidade de comunidades, muitas das quais se mudaram para a Europa de Leste depois das invasões mongóis", afirma o historiador.
No século VIII d.C., os khazares adoptaram a religião judaica e o hebraico como língua escrita. A partir do século X, este reino enfraqueceu e, no século XIII, foi derrotado pelos invasores mongóis. Sand não duvida que os khazares convertidos, em conjunto com os judeus das terras eslavas e do que é hoje a actual Alemanha, "constituíram a origem das comunidades judaicas na Europa de Leste (...), a base da cultura yiddish".
A influência dos khazares é um ponto de discórdia, que levou outro historiador, Israel Bartal, da Universidade Hebraica, em Jerusalém, a criticar Sand por "inventar uma invenção", embora tenha reconhecido que o livro do colega é "um estudo fascinante" (Há'aretz).
Até por volta de 1960, referiu Sand, "as origens complexas do povo judeu foram mais ou menos, relutantemente, reconhecidas pela historiografia sionista, mas depois foram marginalizadas e acabaram por ser apagadas da memória pública de Israel". Restou apenas o mito da "descendência directa do mítico reino de David", e os judeus passaram a reclamar ser "um grupo étnico específico, que regressou a Jerusalém, a sua capital, depois de 2000 anos de exílio".
Bartal nega que "um inteiro capítulo da história judaica tenha sido silenciado por razões políticas", e foi buscar a sua velha Enciclopédia Mikhal, obra de referência sionista, para relembrar a Sand a passagem sobre os khazares, "nação de origem turca".
Diz a enciclopédia, segundo Bartal: "É irrelevante se a conversão ao judaísmo abrangeu um largo estrato da nação khazar; importante é que este acontecimento foi entendido como um fenómeno de grande significado na história judaica, um fenómeno que desde então desapareceu totalmente: o judaísmo como religião missionária. (...) A questão do impacto a longo prazo desse capítulo da história judaica nos judeus da Europa de Leste - quer através do desenvolvimento do seu carácter étnico ou de outro modo - é um tema que necessita de maior investigação. Em todo o caso, embora não conheçamos a extensão da sua influência, é evidente hoje que esta conversão teve um impacto."
Sand, na conversa com o P2, contrapõe: "Quando Bartal fala dos khazares não realça que eles se converteram ao judaísmo, destaca apenas que, antes de eles se tornarem judeus, muitos judeus já tinham chegado à região provenientes da Palestina. Conseguem ver a diferença?" Bartal, acrescenta Sand, "pertence à velha corporação de historiadores, aqueles que, na Universidade Hebraica, nos anos 1930, decidiram dividir a História Judaica e a História Universal em dois departamentos distintos. Quando alguém, como eu, chega e diz que não acredita na História do Povo de Israel, é natural que eles se sintam chocados."
Apesar de tudo, Sand confessa que esperava de Bartal uma recensão mais implacável. "Das minhas 500 referências, ele menciona três erros e, destes três, só tem razão em um e meio, o que me deixa muito honrado. Também não terá gostado que o livro seja um best-seller há 19 semanas, porque isso mostra que a sociedade israelita se tornou mais plural."
Da Bíblia ao sionismo
Bartal não critica apenas a alusão de Sand aos khazares, mas também a asserção de que "'académicos reputados do passado' ocultaram a verdade no que diz respeito à origem impura dos judeus". O seu contra-argumento é o de que "nenhum historiador do movimento nacional judeu alguma vez acreditou que as origens dos judeus são étnica e biologicamente 'puras'."
E continua: "Jamais um historiador judeu 'nacionalista' tentou ocultar o facto de que as conversões ao judaísmo tiveram um grande impacto na história judaica na Antiguidade e nos primórdios da Idade Média. Embora exista na cultura popular israelita, o mito do exílio da pátria judaica (Palestina) é negligenciado nas mais sérias discussões históricas judaicas. Importantes grupos do movimento nacional judeu exprimiram reservas sobre este mito ou negaram-no completamente."
O que é que Sand tenta provar com este estudo, questionou Bartal. "Que a pátria dos judeus não é a Palestina, que a maioria dos judeus descende de diferentes nações convertidas ao judaísmo e que foram os sionistas a desenvolver, no século XIX, uma ideologia etno-biológica e a inventar o chamado "povo judeu"?
Sim, responde Sand: "Os judeus existiram como religião mas não como uma nação-raça. Foi no século XIX que intelectuais de origem judaica na Alemanha, influenciados pelo nacionalismo germânico, levaram a cabo a tarefa de criar um moderno povo judeu, herdeiro de um reino, errante durante 2000 anos e de regresso à pátria".
"Os primeiros historiadores judeus, como Isaak Markus Jost (1793-1860) e Leopold Zunz, olhavam para o Velho Testamento como uma obra teológica, que reflectia as crenças das comunidades judaicas após a destruição do Primeiro Templo", recorda Sand no Monde Diplomatique. "Só na segunda metade do século XIX é que Heinrich Graetz (1817-1891) e outros desenvolveram uma visão 'nacional' da Bíblia e transformaram a viagem de Abraão para Canã, a fuga do Egipto e o reino unido de David e Salomão num autêntico passado nacional. Pela constante repetição, os historiadores sionistas transformaram, subsequentemente, essas 'verdades' bíblicas na base da educação nacional".
Confrontar a historiografia
Ao contrário de Bartal, e ainda que tenha lamentado a profusão de "histórias pessoais, discussões teóricas e observações sarcásticas", o historiador Tom Segev recomendou a leitura da obra de Sand, qualificando-a como "um dos livros mais fascinantes e desafiantes publicados aqui [em Israel] desde há muito tempo".
"Os capítulos históricos estão muito bem escritos e citam numerosos factos e pontos de vista que surpreenderão muitos israelitas quando os lerem pela primeira vez", adianta Segev, num artigo no Há'aretz, que Sand, entusiasmado, nos leu ao telefone. Compreende-se a satisfação de ser compreendido, depois de ter sido insultado. "Houve quem me chamasse nazi e cão, e cheguei a temer ser alvo de agressões por parte de grupos de extrema-direita que violentamente têm interrompido as minhas palestras".
"Eu sou um especialista em História Contemporânea [sobretudo da França onde completou os seus estudos universitários], mas chegou um momento em que senti que era estúpido viver em Telavive e não estudar a história dos judeus, porque o movimento sionista faz parte da história moderna da Europa", disse Sand ao P2.
"Sabia que ia ser contestado, ao enveredar por outra área. Por isso, fiquei impressionado por o meu livro estar a ser vendido aos milhares. A minha posição é muito radical. O êxito talvez se explique porque as pessoas têm medo que a História não esteja com elas."
"Eu não quis destruir o Estado de Israel", vinca este homem que nasceu em Linz, na Áustria, em 1946, e passou os dois primeiros anos da sua vida num campo de refugiados judeus na Alemanha, "Era meu dever confrontar a mitológica historiografia da história dos judeus. O que eu pretendo é dar outra legitimidade ao Estado de Israel. A velha legitimação não se deve manter, porque não é verdadeira. Nunca regressámos a uma Terra Prometida."
Estado de todos
O livro tem um objectivo político, reconhece Sand: "o de transformar Israel num Estado israelita democrático e não num Estado judaico, porque um terço da população não é judia. Por que é que um rabi em Nova Iorque pode dizer que Israel lhe pertence mais do que um colega árabe israelita da minha universidade?"
Sand avisa: "É preciso mudar a consciência etnocêntrica da sociedade israelita. Não há futuro para um Estado judaico, porque deixa de fora 20 por cento de árabes e 5 por cento de imigrantes que não são considerados judeus. Na Galileia, 65 por cento dos habitantes são árabes. Se amanhã se revoltarem, e disserem que querem criar um Estado como o Kosovo, porque o Estado judaico os exclui, têm todo o direito de o fazer. Imaginam Portugal a proclamar-se um Estado dos cristãos?"
"Se em 10-15 anos, não se tornar num Estado de todos os seus cidadãos, Israel deixará de existir", vaticina Sand, ressalvando que é "pessimista mas não fatalista". A diferença? "Acredito que o futuro não é bom, mas não tenho a certeza. Se a civilização durou o século XX sem uma guerra nuclear, não tenho o direito de ser fatalista."
Antes de o telefonema acabar, mais uma clarificação: "Não sou anti-sionista, mas pós-sionista. A definição de uma pessoa como anti-sionista sugere que é contra a existência do Estado de Israel. Eu aceito o Estado de Israel. Digo que hoje há um povo israelita judeu. O problema é que o sionismo não quer reconhecer a nação israelita e apenas a nação judaica. O nacionalismo árabe também não reconhecia a identidade israelita."
De momento, declara Sand, "sou a favor da solução de dois estados - não um judaico e um árabe, mas um israelita e um palestiniano. Depois, espero que seja criada uma confederação de dois estados. Não defendo um estado binacional porque isso seria pedir aos judeus que se tornassem numa minoria no seu próprio país. É inaceitável."
E é assim que, quase quatro décadas depois de Golda Meir, ex-primeira-ministra israelita, ter dito ao Sunday Times (15 Junho 1969) que "não existe isso a que chamam de povo palestiniano", Shlomo Sand, outro israelita, vem dizer-nos que "o povo judeu é uma invenção". E para ilustrar o que daí resultou, o seu livro abre com uma citação de Karl Wolfgang Deutsch: "Uma nação é um grupo de pessoas unidas por um erro comum quanto à sua origem e uma hostilidade colectiva em relação aos seus vizinhos."
 

Circular a duas rodas em Lisboa deixou de ser um mito

13.09.2008, Ana Nunes

Estudo de engenheiro civil especialista em Vias de Comunicação e Transportes conclui que os custos são mínimos e imensas as vantagens

A Pode parecer que não, mas Lisboa é uma cidade ciclável para a maioria da população que nela vive, estuda e trabalha, bem como para os dois milhões de turistas que a visitam anualmente. Após 100 dias de bicicleta e 1200 quilómetros percorridos, esta é a conclusão de Paulo Santos, engenheiro civil especializado em Vias de Comunicação e Transportes, que a 1 de Janeiro deste ano iniciou o projecto na capital, no âmbito de uma tese de mestrado.
De Belém ao aeroporto "desfaz-se o mito" de que a bicicleta não serve para meio de transporte. "Mais de metade de toda a área urbana da cidade é praticamente plana e mesmo no Verão, de manhã, pode circular-
-se com temperaturas na ordem dos 20-22 graus. Do centro histórico ao limite da cidade as distâncias são inferiores a dez quilómetros, a distância considerada de conforto, para a utilização da bicicleta como meio de deslocação", analisa o autor do trabalho académico.
As sete colinas que dão nome à cidade não são problema, mas "apenas uma parte de toda a área urbana da cidade, que no último século cresceu urbanisticamente para além da zona histórica, tendo-se expandido até aos limites do concelho", explica Paulo Santos. No seu entender, estão reunidas as condições para o uso recorrente da bicicleta "em termos de orografia, clima e dimensão da cidade".

Pequeno investimento
Moram cerca de 700 mil pessoas em Lisboa, e que 70 por cento dos fluxos bidireccionais (casa-trabalho-casa) de pessoas se faz na "âncora" da cidade, composta por toda a frente ribeirinha e pelo eixo que vai da Baixa ao Campo Grande. "Com 300 euros compramos uma boa bicicleta de cidade" e, por exemplo, em plano, "qualquer pessoa, mesmo sem forma física de atleta, faz 15 a 20 km/h, sem esforço".
O investigador descreve a sua experiência pessoal: "A subir a Av. da Liberdade faço 10 km/h, mas a descer faço 40-50 km/h, compensando o tempo gasto na subida", relembrando que, nos centros urbanos, a média de circulação de um automóvel é inferior a 20 km/h. "Demorei 30 minutos de Santos ao Saldanha. Da cota dos 5m à cota dos 80m percorri cerca de 5 km. A subir, é verdade. Mas no regresso será sempre a descer". De carro, devido ao trânsito, aos ciclos dos semáforos e ao tempo perdido à procura de estacionamento, Paulo Santos diz que demora praticamente o mesmo.

Vantagens e desvantagens
Saúde física, mental e económica é a vantagen deste exercício diário que "faz descer vertiginosamente" os níveis de stress, ansiedade e irritação. A experiência valeu ainda a Paulo Santos seis quilos perdidos e a poupança de 300 euros em gastos com o automóvel e transportes públicos. Para a sociedade, "reduz o tráfego automóvel e a área ocupada pelos veículos é devolvida aos cidadãos" que vêem as relações sociais promovidas assim como a relação com a cidade, explica. "Para o ambiente, zero emissões de carbono, zero ruído", acrescenta ainda. Esta não é, porém, a solução para os problemas de mobilidade e poluição nas cidades "que envolve muito mais do que bicicletas", destaca.
Como desvantagens enumera "questões relacionadas com a segurança do ciclista e da bicicleta" pelo facto de "não existirem corredores próprios para ciclistas ou estacionamentos". Porém, o investigador ressalva que, após 1200 quilómetros misturado com o tráfego automóvel da cidade, "não houve qualquer situação de acidente ou incidente a relatar". Conclusões com que se congratula José Caetano, presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta, afirmando que "são conclusões que a federação vem reafirmando desde há 15 anos, uma realidade que já está construída, mas agora reafirmada por um engenheiro, o que aumenta a sua validade".

Criação de corredores
"Lisboa tem características únicas e excepcionais" para a criação de corredores de circulação em termos de "património arquitectónico, bairros históricos e frente ribeirinha". O investigador explica que "a criação de corredores para bicicletas nas principais ruas e avenidas, na maioria dos casos se resolve com uma pintura no pavimento com 1,5 metros de largura e alguns sinais verticais, medidas complementadas com ligeiras modificações no Código da Estrada". O engenheiro defende em alguns casos a partilha dos corredores com as faixas Bus, "há semelhança do que se faz noutras cidades europeias".
Facilmente se poderia criar um eixo desde a Baixa até ao Campo Grande, sem implicar grandes obras, considera. Na Fontes Pereira de Melo "basta roubar 35 centímetros a cada uma das vias para ganhar espaço suficiente para a ciclovia", remata.
"É cada vez mais fácil ver uma bicicleta amarrada a um qualquer poste ou árvore da cidade. E passam por mim, todos os dias, vários ciclistas", revela Paulo Santos, que acredita no crescimento desta tendência desde Março. As causas apontadas pelo engenheiro para o acréscimo passam pela coincidência com um período de aumento do preço dos combustíveis, de melhoria do clima com a chegada da Primavera, e ainda o facto de metade da população portuguesa ter atingido excesso de peso, a par da comunicação social que começou a promover a utilização deste veículo". Para o investigador são as mulheres a dar o exemplo, pois "cada vez mais adoptam a bicicleta".
Em Julho, a Câmara de Lisboa aprovou um estudo para a criação de um sistema de bicicletas de uso partilhado (ver outro texto), com cerca de 2500 veículos distribuídos por 250 postos na cidade, sistema que será muito semelhante aos que existem em Paris ou Barcelona.
Para o investigador, "os negócios directa e indirectamente relacionados com bicicletas são um dos mais lucrativos e em maior crescimento em diversos países".
Paulo Santos elaborou o estudo após 1200 km a pedalar por Lisboa, sem registar qualquer acidente.

Aveiro e Ovar são bons exemplos
a seguir

A Em Portugal, cidades como Aveiro e Ovar são "excelentes exemplos" da utilização da bicicleta como meio de transporte e onde "esta utilização está praticamente institucionalizada".
No estrangeiro, Paulo Santos garante que a cidade de Turku, na Finlândia, assenta em grandes diferenças em termos de política de mobilidade. "Neste momento, a prioridade já não é construírem-se auto-estradas ou vias rápidas, mas sim o inverso: converter vias rápidas (80 km/h), nas proximidades das populações, em arruamentos urbanos (40-50 km/h), forçando os automobilistas a deslocarem-me mais devagar, ou a procurarem alternativas ao automóvel, como a bicicleta. E não há a desculpa do clima. Por lá, as temperaturas variam de -20º no Inverno a 30º no Verão. E toda a gente anda de bicicleta".

Uso partilhado
A promoção institucional do uso da bicicleta ainda não existe, mas há uma proposta para o seu uso partilhado em Lisboa. Segundo a previsão do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o serviço deverá ser instalado em Junho do próximo ano. António Costa já disse que esta era "uma medida importante para estimular o uso da bicicleta e a mobilidade sustentável". Porém, o vereador comunista Ruben de Carvalho temia "problemas de segurança" decorrentes de uma utilização maciça e não controlada daquele meio de transporte. "Dada a forma como está o espaço público, andar de bicicleta vai ser uma aventura", argumentou o vereador, comentando o lançamento da proposta.
Para Paulo Santos, este é um projecto viável que pode vir a ser aplicado com sucesso. "Será sem dúvida um dos maiores contributos para a democratização e estímulo da utilização da bicicleta como meio de transporte na cidade, se for implementado."
O engenheiro mostra-se, porém, descrente na hipótese, afirmando que "uma promessa política não passa disso mesmo, e há 15 anos que se fala nestas matérias". De acordo com o investigador, "têm de ser os cidadãos a mostrar aos responsáveis que querem usar a sua bicicleta, pressionando assim a fazer o contrário da-
quilo a que estão habituados: investir nas pessoas e na cidade, não nos automóveis". A.N.

Transporte público vai abrindo a porta

13.09.2008

"Os transportes públicos começaram agora a dar os primeiros passos" na promoção do transporte de bicicletas no seu interior. Desde o ano passado que é possível, ao final do dia, regressar a casa com a bicicleta no metro, sem pagar mais por isso e o mesmo se passa na CP, Fertagus , Transtejo e Soflusa. "Mas ainda há muito a fazer", desabafa Paulo Santos, explicando que seria "um excelente estímulo à promoção da bicicleta se o metropolitano permitisse a utilização de bicicletas nas suas carruagens também no período da manhã".
Também desde 2006 que a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta promove o Prémio Nacional "Mobilidade em Bicicleta" que visa reconhecer publicamente o contributo de entidades e pessoas individuais que tenham promovido a utilização da bicicleta nas suas múltiplas vertentes. A terceira edição terá lugar já no próximo dia 18.

12.5.08

 

Quando os portugueses tiveram medo de Maio de 68

12.05.2008

Autocarros de volta a Portugal cheios de medo. Para os emigrantes portugueses que viviam nos bairros de lata franceses, Maio de 68 não foi uma festa. É uma história pouco conhecida, mas há quem teime em contá-la. Por Kathleen Gomes, em Paris


Não é uma história feliz, mas alguém tinha de a contar.

Nos debates que normalmente sucedem os filmes de José Vieira, dizem-lhe muitas vezes: "Você agora devia fazer filmes sobre os portugueses que tiveram sucesso."
Como se pedissem um antídoto.
José Vieira costuma responder com uma tirada à Tolstoi. "As pessoas felizes não têm história."
A propósito do Maio de 68, há uma história que já foi contada - a dos exilados portugueses em Paris que participaram ou assistiram aos acontecimentos da primeira fila - e uma história que faltava contar - a dos milhares de emigrantes portugueses que tiveram medo.
José Vieira, 50 anos, um luso-descendente, como se costuma dizer, acaba de fazer um filme sobre isso. Chama-se Le drôle de mai e vai ser um problema traduzir para português porque este drôle tanto significa engraçado como bizarro. Nele percebe-se como o Maio de 68 não foi só celebração mas temor.
Em 68 há 300 mil emigrantes portugueses em França. Maio era uma revolta de tendência esquerdista e eles tinham aprendido a desconfiar dos comunistas. A greve geral e paralisia do país ameaçavam boicotar a sua vinda para França - receavam perder o trabalho ou ser reenviados para Portugal. Era uma comunidade que mal falava francês, muitas vezes analfabeta e com poucos anos de França (a vaga começa em 1963).
"Naquela altura, a gente sabia lá o que era uma greve geral", diz um ex-emigrante no documentário de José Vieira. O pai do realizador, 16 anos de França, também dá o seu testemunho: "Os portugueses não eram muito a favor da greve, eram mais agarrados ao trabalho. Acho que perdi dois dias [de trabalho], só. Algumas pessoas vieram passar uns tempos a Portugal até que aquilo passasse."
José Vieira remontou Le drôle de mai porque, na primeira versão, "as pessoas estavam sempre a falar do medo, do medo". O medo "estava inscrito nas pessoas" e isso tinha menos a ver com o imprevisível Maio francês do que com hábitos trazidos de casa. Como diz ao P2 Jorge Valadas, um português que chegou a Paris em 1967 e que se assume como revolucionário ("Considerei-me revolucionário durante muitos anos e ainda me considero, embora ache que a palavra tem hoje um sentido difícil de definir"), "o salazarismo era uma máquina de repressão que não se pode reduzir às histórias da PIDE, da polícia, dos presos. Não, era muito pior do que isso". "Eu era um puto de 20 anos, mas tinha uma carga de revolta social, relacional, afectiva, sexual, tudo, extremamente forte."
Bairros de lama
Le drôle de mai tem um subtítulo: Crónica dos anos de lama. É uma história que podia continuar blindada pelo silêncio, porque não enaltece ninguém: nem Portugal, nem França, nem os seus protagonistas. Em 68 havia uma centena de bairros de lata na região parisiense, os chamados bidonvilles. Uma parte dos portugueses que chegavam a França à época iam directamente da Gare d"Austerlitz para os bidonvilles. Isso faz parte da história dele, José Vieira, que cresceu no bidonville de Massy, no Sul de Paris.
Um habitat precário e lamacento que se propagava ilegalmente em baldios e terrenos abandonados à beira de edifícios e torres modernos: um formigueiro com vista para a cidade que edificara. Barracas onde se vivia à míngua, com água a brotar do solo húmido. Por causa da lama, conta José Vieira, "as pessoas tinham dois pares de sapatos - um para andar no bairro, outro para sair".
"Eu não me vim embora por vergonha", admite um ex-emigrante no filme de Vieira. E assim Malcata (aldeia dos pais de José Vieira, na fronteira) foi perdendo os seus filhos para os bidonvilles franceses - porque nunca ninguém voltava para contar como realmente se vivia lá.
Carlos Saboga, argumentista que tem escrito para António-Pedro Vasconcelos (O Lugar do Morto, Jaime), Fernando Lopes (Matar Saudades) ou Mário Barroso (O Milagre segundo Salomé), era um português em Paris nessa altura (até hoje), alguém que vivendo noutra realidade, a dos exilados políticos, viu de perto os bidonvilles por razões profissionais (participou na pesquisa para o filme O Salto, de Christian de Chalonge, sobre a emigração clandestina portuguesa). "Paris estava cercada de bidonvilles onde estavam os tipos que estavam a fazer a França. Estes tipos estavam escondidos, não se viam nas ruas. Trabalhavam na Renault, na Citroën, na construção civil, nas auto-estradas. Eu conhecia os bairros de lata lisboetas - Casal Ventoso, Vale Escuro -, porque enquanto militantes [comunistas] íamos lá falar com as pessoas, mas nunca tinha visto nada assim. As condições de vida eram pavorosas. Quando os franceses falam dos 30 anos de prosperidade a seguir à guerra, esquecem-se dessa outra face da moeda."
O susto de Maio
Jorge Valadas, 62 anos, chegou a Paris depois de desertar da Marinha - um rebelde com causa mas que, como ele próprio diz, "não conhecia absolutamente nada de política". É em Paris que lê o Manifesto do Partido Comunista aos 20 anos e firma a sua formação e actividade políticas, nomeadamente escrevendo na revista portuguesa Cadernos de Circunstância, "feita por uma dezena de pessoas à esquerda do Partido Comunista e que estavam à procura de uma via", entre as quais se contava o sociólogo Manuel Villaverde Cabral. É aí que Maio de 68 o apanha. "Nunca direi que fiz isto e aquilo em Maio de 68. Andei empurrado pelo que se fazia, ia-se atrás do que acontecia. São períodos sociais em que as pessoas evoluem e mudam em dias como hoje em anos."
Jorge Valadas integrava os chamados comités ouvriers-étudiants que eclodiram em Maio de 68 (comités trabalhadores-estudantes, tentativas de fusão entre os estudantes e a classe operária, à revelia dos sindicatos de tendência comunista) e foi contactado para traduzir os panfletos e ir distribuí-los ao bidonville, já que falava português. "De maneira que lá fomos nós, às tantas da manhã, distribuir o papel, explicar o que se estava a passar, que tinha de haver solidariedade e eles tinham de aderir à greve, que isto era para mudar o mundo para toda a gente. Nem sei para que bidonville fomos, acho que foi o de Nanterre. E aquilo era um bunker, nem sequer pudemos entrar lá. Ninguém nos queria receber, um medo absoluto. E - isto é o lado caricato nesta história - a única pessoa que nos recebeu, que nos fez entrar na barraca dele, era um proletário português do Partido Comunista. O gajo estava completamente isolado naquele bidonville."
O jornal Le Monde noticia em Junho de 68 que dez mil portugueses tinham voltado para Portugal na sequência da revolta de Maio. José Vieira tinha dez anos à época. "Só me lembro de os vizinhos terem ido embora. Belmiro, o homem que fazia o transporte dos emigrantes portugueses, passou o mês todo a fazer viagens entre a Malcata e os bairros de lata."
A par disso, organizações pró-salazaristas em França trataram de reconduzir portugueses para o país, talvez por receio de um contágio comunista. Missões católicas, consulado, Association des Portugais en France. "Todos os dias saíam autocarros da Bastilha para Portugal", diz Vieira. Contava-se todo o tipo de histórias para assustar os emigrantes. "No fim de Julho fui para Itália, porque se dizia que a polícia francesa estava a entregar portugueses sem papéis à PIDE. Corriam esses boatos, que depois eram falsos. Mas não há jornais, não há notícias verificáveis", lembra Carlos Saboga. Esteve na linha da frente da revolta de Maio, a erigir barricadas na rue Gay-Lussac e ocupou a Casa de Portugal, residência oficial dos universitários portugueses em França. Para ele, Maio de 68 foi "umas férias grandes". Nada a ver com a experiência dos emigrantes portugueses nos bidonvilles. "Nem parece que vinham do mesmo país", resume José Vieira. Ele tem feito da emigração portuguesa, sob todas as suas formas (clandestina, exílio político, regresso e confronto com uma pátria idealizada), o programa da sua actividade enquanto realizador. Porque também é a história dele, como se viu (apesar ter feito a sua vida quase sempre em França, diz sentir-se "totalmente um emigrante", não se naturalizou, tem um BI português e um cartão de residência permanente), porque havia "uma história enorme a contar e praticamente ninguém estava a fazê-lo".
"Há uma segunda geração", nota Jorge Valadas, "de filhos de emigrantes, que têm uma necessidade muito forte de aceder à história dos pais deles. Porque um dos aspectos da emigração portuguesa é essa amnésia social. E a miséria reforçou muito isso. Vens de Vila Real ou Freixo de Espada à Cinta, morrias de fome com toda a tua família, chegas aqui e trabalhas como um cão... voltas para Portugal e não queres falar disso. Essa amnésia durou o tempo de uma geração. E agora aparecem os filhos desses emigrantes, a perguntar: mas qual é a história dos meus pais? O que é que se passou? Porque é que nunca me contaram nada? Há uma exigência de conhecer uma sociedade que lhes foi ocultada ou apresentada de maneira mítica."
Não é uma história feliz, mas alguém tem de a contar.
"E a história dos bairros de lata cabo-verdianos em Lisboa? E os mini-bidonvilles de ucranianos e moldavos no Algarve?", pergunta Jorge Valadas. "O facto de não se falar de uma [emigração portuguesa] também permite que a outra exista."

7.1.08

 

A vida solta

A vida solta

07.01.2008

Já era livre muito antes da liberdade do 25 de Abril. Foi livre na cama-jangada de Comunidade, onde chegaram a ser cinco corpos enroscados. Luiz Pacheco respirava com todos esses pulmões. Foi o primeiro escritor da sua própria vida e o primeiro editor de muitos grandes. O P2 falou com figuras que se atravessaram no seu percurso. Nas páginas seguintes, textos de Vítor Silva Tavares e Rui Zink. Por Alexandra Lucas Coelho

Só uma "amiga à séria" dirá de Luiz Pacheco o que diz a actriz Lia Gama: "Mas ele na realidade já estava morto. Não podia escrever, não podia ler. Que vá com os anjos."
Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, primeiro editor de grandes autores portugueses e primeiro escritor da sua própria vida, morreu no sábado à noite, aos 82 anos, entre a casa de um filho e o Hospital do Montijo.
Segundo a família, a morte aconteceu na sequência de um estado de debilitação geral. No último ano, Luiz Pacheco vivera no Montijo, primeiro em casa desse seu filho, João Miguel, depois num lar, e nos últimos dias de novo em casa do filho.
O corpo fica em câmara ardente na Basílica da Estrela a partir das 18h de hoje, e amanhã, após uma missa - a pedido de uma filha -, segue, às 18h45, para o Cemitério do Alto de São João, onde será cremado.
Era asmático desde criança - chegou a dizer numa entrevista que pensara não passar dos 21 anos -, e foi internado mais do que uma vez para curas de desintoxicação alcoólica. Mas, diz Lia Gama, pareceu sempre ter "muita saúde". Lisboeta da Estefânia, Luiz Pacheco nasceu a 7 de Maio de 1925 numa família sem grandes meios. Nas suas palavras, o pai era "um teso", um funcionário público que devia às criadas e à mercearia. Pacheco, futuro libertino, contou várias vezes que se estreou sexualmente "com uma puta de vinte escudos" da Mouraria que ao mesmo tempo comia uma maçã. Antes terá sido molestado sexualmente por um homem. Aos 18 anos dormia com uma rapariga de 14, o que lhe valeu acusação de estupro e resultou em casamento (veio a ter três filhos da primeira mulher, dois de uma segunda, três de uma terceira).
Passou pela Faculdade de Letras, Filogia Românica, onde terá sido bom aluno, antes de desistir. Empregou-se como agente fiscal da Inspecção Geral de Espectáculos, mas por pouco tempo. Começou a escrever em jornais e revistas, da Seara Nova ao Diário Popular, e em 1950 fundou a editora Contraponto, onde publicou, apesar da censura, aquilo de que gostava e em que acreditou, em muitos casos como um visionário. O Amor em Visita de Herberto Helder", como O Manual de Prestidigitação, A Pena Capital ou Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano, de Mário Cesariny. Ou Natália Correia, Raul Leal, António Maria Lisboa e vários outros surrealistas. João Gaspar Simões chamou-lhe "sacristão do surrealismo". Ele preferia dizer-se "neo-abjeccionista".
Anarca de natureza e comportamento, fez-se militante do PCP, de falar em querer bandeira no caixão e ter quotas em dias. "Eu já era muito livre antes da liberdade do 25 de Abril", disse uma vez.
Já depois dos 70, andava com um frasquinho de comprimidos de nitroglicerina no bolso. Se o suicídio o assaltasse, era só tomar.
Teve sempre tão pouco dinheiro que chegou a andar vestido de jornais debaixo da gabardine para aquecer. E calça curta a deixar ver tornozelos esqueléticos. Viveu de colaborações, dos livros que fazia, passou a ter um subsídio do Estado, por intermédio de António Alçada Baptista, e recebeu apoios de mecenas amigos, como Mário Soares.
"Volta e meia eu ia levar dinheiro ao Pacheco, quando ele tinha dificuldades, precisava de mudar de óculos ou outra coisa", conta José Manuel dos Santos, então assessor de Soares. "Tinha que ser em notas, porque ele não sabia ir a bancos."
Pacheco, diz, era não só um homem de uma cultura solidíssima como muito actualizado. "Essa face revela-se menos, porque ele fazia aquelas coisas provocatórias. Mas tanto tinha lido o Padre AntónioVieira como o Roland Barthes."
Tal como podia dizer mal de Mário Cesariny mas "tinha uma grande admiração por ele", apenas "achou que o Cesariny se tinha integrado excessivamente nas normas".
Uma das obras-primas de Luiz Pacheco, o conto Comunidade é dedicada a Cesariny, "poeta do corpo". E recentemente, no primeiro aniversário da morte do poeta, Pacheco e Cruzeiro Seixas reuniram-se para fazer uma edição especial desse livro, o da cama-jangada, ele, mulher e filhos ("Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia.")
"O Pacheco fazia e desfazia em relação aos outros e a si próprio", nota José Manuel dos Santos. "Não levava às últimas consequências a encenação do seu mito. Nas entrevistas desfazia tudo. Percebia que havia o perigo de assumir uma espécie de estátua de transgressor da literatura. Tinha esse sentido satírico em relação a si próprio. Era o seu impulso natural. Não fazia atitude."
Por exemplo, aponta, em O Libertino Passeia Por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor, um dos textos mais conhecidos de Pacheco, "é o engatatão mas também engata um magala, até nisso há um desfazer da linha libertina de Sade e Casanova".
Aliás, em O Libertino... o que é que restava?, perguntava o próprio Pacheco. Uma masturbação. Era o fim. A sós ou acompanhado, como em O Teodolito - que Pacheco considerava o seu melhor texto - um livro que termina com Umbelina a "bater-lhe a punheta" "como se embalasse um filho" ou "desse o último aperto de mão, pela última vez se despedisse de um condenado".
A cama-jangada
A Luiz Pacheco, para Casanova e Sade faltaram-lhe títulos, farpelas - possivelmente, sobretudo, a natureza. Era um vagabundo chaplinesco arraçado de libertino, a celebrar o corpo chamando as coisas sempre pelos nomes, num primoroso português de quem leu muito e bem, com a desfaçatez de um fura-vidas.
Quis ser marinheiro mas nunca aprendeu a nadar, contava, rindo de si próprio, ou de nós, ou talvez não. Foi levar o então grande amigo José Cardoso Pires ao cais e ficou a ver navios.
O seu barco foi a cama-jangada, a da Comunidade ("A cama é larga, de madeira, alta, gingona, parece uma jangada. Eu comparo-a a uma jangada, onde vamos nós cinco, cercados de noite, de ventos, de ondas caprichosas, perigos desconhecidos. É uma imagem literária esta, a da cama-jangada: a literatura, a quem muito, sofregamente lê, dá isto: comparações para tudo, referências imprevistas, casos, tipos, situações paralelas que já houve ou foram inventadas, uma outra vida ou realidade como a nossa, de todos os dias e que se infiltra no sangue, ferve na memória sem que a gente dê por isso. Não ajuda a viver, é certo, porque nada ajuda a viver, antes a figurar-se. Permite, talvez, uma certa coerência [interior]. Não é importante, afinal - mas que será importante, afinal?").
Fez os seus livros e os dos outros. Editor, antes de escritor, se quis, em entrevistas.
Há assim vários Luizes no Luiz que deu à cultura portuguesa 82 anos soltos de convenção.
O alfarrabista Luís Gomes conheceu-o há uns 15 anos, através de Ricarte-Dácio de Sousa, um surrealista que se suicidou nos anos 90. "Ficámos muito próximos depois da morte do Dácio." Luiz Pacheco passava muito pela livraria e dele Luís Gomes guarda sobretudo o olhar, "apesar daquela grossura de lentes", isto num homem muito míope, para o fim quase cego, que nunca quis experimentar o laser por medo.
"Aquela libertinagem toda à volta do Luiz, ele no fundo não era bem assim, era um homem afável, tinha sentimentos. Fazendo os devidos descontos, não tendo que estar a fazer a sua personagem, não tendo uma audiência, o Luiz era um gentleman. Nessas conversas mostrava delicadeza. Um dos nossos temas era o Dácio. E ele falava dele com uma ternura e uma elevação que não se compadece com aquelas coisas que escrevia. Era um tipo doce."
Depois, há o Luiz escritor que "punha muito bem toda a sua vida em papel como nunca se fez em Portugal", o Luiz leitor com uma "cultura fantástica", e o Luiz editor "vastíssimo, que publicou tudo o que hoje são grandes autores e que na altura só ele percebeu".
Entrevistas em breve
Ainda este mês deverá sair na Tinta da China um volume com entrevistas de Luiz Pacheco organizado por João Pedro George, que também está a preparar uma biografia, para apresentar como tese de doutoramento. "É uma experiência de vida incomum, muito longe das convenções sociais. O maior biógrafo dele é ele. Aquilo que vivia era para escrever."
Entre o que viveu estão os seus amores com raparigas tão novas, como a sua primeira mulher de 14 anos, à luz de hoje, demasiado novas. Ontem, no site do Público, um leitor escrevia que "branquear a sua promoção da pedofilia é desonesto". João Pedro George ressalva que "algumas partes da sua vida hoje seriam passíveis de serem consideradas crime, mas tem que haver uma contextualização no tempo".
"As miúdas eram mais adultas do que eu, não havia pedofilia nenhuma", respondeu uma vez Luiz Pacheco numa entrevista, e repetiu o mesmo noutras.
Além disso, lembrava, "o libertino tem regras". Por exemplo, não se mete com a mulher do amigo.
Cândido Ferreira, que encenou Comunidade, conheceu-o nos anos 60, quando ele vivia numa cave na Estefânia. Conta que Pacheco nunca quis ver um ensaio da peça e nem foi à estreia. "Tinha medo. Mas apareceu no segundo dia e adorou. Depois foi várias vezes, levando amigos."
Anabela Almeia, que fez o guião de Mais um dia de noite, documentário sobre Luiz Pacheco, ontem reexibido na RTP, diz que ele nunca o quis ver, nem depois de concluído, quando ficaram próximos e ela lhe levava DVD, nas visitas. "Tinha medo de se emocionar."
Lia Gama, "companheira de muitas histórias que metem muita bebezana, muito tintol e bejecas", conheceu-o por carta, estando ela em Paris e sendo ele amigo de um amigo dela. "Escrevia-nos a pedir roupa e latas de conserva para as crianças da Comunidade". Os filhos.
Foi ela quem lhe levou cadernos de capa dura da Papelaria Emílio Braga. "Quando o Vítor Silva Tavares lhe editou o Libertino, eram 500 exemplares assinados pelo autor, e eu e o Vítor fomos com os caixotes ao Hospital de Santa Marta, onde ele estava por causa dos pulmões. Queixou-se que tinha dificuldade porque o papel dobrava-se nos joelhos quando tentava escrever. Então passei pela Emílio Braga e vi aquelas cadernos de contas encadernados e levei-lhe dois. Segundo ele, foi aí que começou a escrever os diários."
Estava Lia Gama a fazer As Lágrimas Amargas de Petra von Kant no Teatro da Graça e ele disse-lhe que a ia ver. Ela não acreditou. "Um dia cheguei e tinha lá um enorme ramo de cravos. Ele foi mesmo, mas chateou-se e saiu a meio."
Libertino ou libertário? "Libertino, libertário e anarca, mas sobretudo um homem de cultura, de inteligência, irreverência, contestário e que faz muita falta à cultura. Não se esqueçam que foi ele o primeiro editor do que não se podia editar naquelas anos 50 terríveis."
Lia Gama estranha a basílica e a missa. "Não tenho nenhum intreresse em ir ao funeral, porque nem ele nem eu gostávamos de folclore. A basílica, para ele é igual, mas eu acho que estaria melhor no Palácio Galveias. Mas vou à basílica dizer-lhe adeus."
Em Comunidade, Pacheco escreve: "Mas a minha força é grande. Respiro ao mesmo tempo por cinco pulmões: quatro corações jovens (certeiros e cheios) com muitos anos de corda para badalar, batem ao lado do meu e dão-lhe ânimo e companhia, eia! sus! avante! Para mais uma jornada." E a seguir: "Somos puros. Sabemos e cumprimos. Bem-aventurados somos e vós, também. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis, se as praticardes."
E em Teodolito: "Escrevo como um profissional, à linha, as palavras pouco importam, são ambíguas e inúteis. As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer."
Aquele ponto em que a vida se solta da morte.

10.10.06

 

School of Verse

By DAVID ORR
Published: October 1, 2006

The difficulty of teaching poetry to a lay audience can be summarized by a single, diabolical name: Robin Williams. Williams, as you may recall, played the free-thinking English teacher John Keating in the 1989 movie “Dead Poets Society,” a film that established once and for all the connection between learning about poems and killing yourself while wearing a silly hat. In the movie’s first depiction of poetical pedagogy, Williams as Keating instructs his students to open their textbook — a dry, dully diagrammatic primer by “Dr. J. Evans-Pritchard” — and then, with the insouciant panache of Lord Byron (or possibly Patch Adams) tells them to rip out the introduction! Yes! Riiiip! “Armies of academics going forward, measuring poetry,” cries the righteous Keating, “No, we will not have that here!” Instead, the class is told to embrace a philosophy of carpe diem, and sic transit J. Evans-Pritchard. Significantly, however, while Keating subsequently teaches his students how to stand on their desks, how to kick a soccer ball with gusto and how to free-associate lamely about Walt Whitman, he’s never shown actually teaching them anything about the basics of form — basics they’d need in order to appreciate half the writers he’s recommending.

This is, unfortunately, to be expected. As Samuel Johnson put it more than 250 years ago, anyone attempting to discuss “the minuter parts of literature” usually ends up either “frighting us with rugged science, or amusing us with empty sound.” That is, in trying to avoid being a technique-obsessed pedant (like Evans-Pritchard), the teacher of poetry can easily become a slogan-spouting windbag (like Keating). Or vice versa. Seen in this light, the text-ripping scene from “Dead Poets Society” doesn’t show us a helpful new way of relating to poetry so much as the two standard, unhelpful approaches colliding. Of course, this dilemma isn’t unique to poetry. Any discipline with a complicated set of rules — baseball, for instance — is vulnerable to being reduced to limp statistics or inflated into a George F. Will column. But poetry has a problem that baseball doesn’t: it exists both as an art and as a metaphor for certain kinds of experience. It’s both poetry and Poetry.

When people use the word “poetry” as a metaphor — when it’s Poetry — they’re usually thinking about one of two related concepts. First, they’re talking about a kind of exemplary expression of a particular craft, a sort of “art of the art.” So, for example, different audiences might describe a performance by Cecilia Bartoli or Tiger Woods or Ferran Adrià or Zakk Wylde as “pure poetry.” Second, people tend to associate poets with outrageousness, rebellion and the “deliberate disorientation of the senses,” as Rimbaud put it. This helps to explain why so many rock stars (as opposed to country singers) get called “poets”; it also helps explain why Keating asserted that his youthful encounters with Shelley’s verse were bacchanalia in which “spirits soared, women swooned and gods were created!” Regardless, because so many readers become used to thinking about the word “poetry” in one of these metaphoric senses, they often come to an actual poem expecting either to be awed by excellence or overwhelmed by the Raw Passion of It All.

They’re usually disappointed. Neither of these possibilities has much to do with the way most readers respond to real, un-metaphorical poetry — which is, after all, an art form and not a trope. While it’s true that some aspects of poetry transcend the nuts and bolts of technique, it’s equally true that many more do not. Consequently, only rarely do lay readers experience poems as a cross between an orgasm and a heart attack; usually, the response is closer to “What?” or “Eh” or at best “Hm.” This doesn’t mean that other reactions aren’t possible; but such reactions generally come from learning what exactly is going on. And you don’t learn what’s going on by kicking a soccer ball and shouting a quote from Shelley. You learn what’s going on by reading carefully, questioning your own assumptions and sticking with things even when you’re confused or nervous. Then you can kick the soccer ball.

This is where it’s useful to turn from Robin Williams to another actor, Stephen Fry. Fry, who’s known in Britain as a novelist, comedian, commentator and all-around interesting dude (and in America as the guy who sometimes collaborates with the guy from “House”), has written a book with the cheerfully awful title “The Ode Less Travelled: Unlocking the Poet Within” that purports to teach us “how to have fun with the modes and forms of poetry as they have developed over the years.” Or to put it another way, this is J. Evans-Pritchard as rewritten by the man who played the sublimely obtuse General Melchett in the “Blackadder” series; which is to say, this is something very odd indeed.

It’s also oddly effective. “The Ode Less Travelled” is at once idiosyncratic and thoroughly traditional — it’s filled with quips, quirks and various Fry-isms (sestinas are “a bitch to explain but a joy to make”), yet still manages to be a smart, comprehensive guide to prosody. It’s organized in three main sections — meter, rhyme and form, with exercises suggested for each — and a smaller concluding section in which Fry gives some general thoughts about contemporary British poetry. It also has a practical, good-natured glossary (a choliamb is a “kind of metrical substitution, usually with ternary feet replacing binary. Forget about it.”) The key to the book’s success is its tone, which is joking, occasionally fussy, sometimes distractingly cute, but always approachable. If Fry thinks the meter of a Keats couplet doesn’t work, he’ll tell you so, and he’s more than happy to admit his own effort at a ghazal is “rather a bastardly abortion.” As is to be expected in any book taking on such a complicated subject, there are a few minor errors. For instance, in a discussion of hendecasyllabic (11-syllable) lines, Fry includes Frost’s “And like the flowers beside them, chill and shiver.” (Unlike Fry, Frost is American, and would have pronounced “flower” with two syllables.) But such mistakes are negligible. On the whole, the book is ideal for anyone who’s interested in learning more about poetic forms but doesn’t have an obsessive assistant professor living next door.

So why does “The Ode Less Travelled” work when many books with more responsible titles have failed? To begin, Fry avoids the poetry-as-metaphor trap. He does so by acknowledging upfront what anyone who’s ever taught poetry to a nonspecialist audience will recognize as The Fear. This is, in Fry’s words, the general reader’s sense that “poetry lies in inaccessible marshland: no pathways, no signposts, just the skeletons of long-dead poets poking through the bog and the unedifying sight of living ones floundering about in apparent confusion and mutual enmity. Behind it all, the dread memory of classrooms swollen into resentful silence while the English teacher invites us to ‘respond’ to a poem.”

Rather than pull a Keating, and attempt to turn poetry into a Doors concert circa 1969, Fry’s goal is to demystify the art without deadening it; to make it seem as open to the interested amateur as “carpentry and bridge and wine and knitting and brass-rubbing and line-dancing and the hundreds of other activities that enrich and enliven the daily toil of getting and spending.” This attitude may annoy certain segments of the American poetry world, to which one can only say: Good.

The book also works because it gives us a strong perspective without sounding pinched or dogmatic. Fry is a stickler for form; he believes you don’t really understand poetry unless you understand at least some of the history of English verse technique. But if he’s in favor of form, he’s also “far from contemptuous of Modernism and free verse, the experimental and the avant-garde or of the poetry of the streets.” It’s also to Fry’s credit that alongside the sonnet and quatrain, you’ll find the Japanese senryu, the Filipino tanaga and the Vietnamese luc bat. In the end, what comes through most vividly in “The Ode Less Travelled,” and what makes it work so well for the amateur, is Fry’s belief that poetry, like cooking, “begins with love, an absolute love of eating and of the grain and particularity of food.” Here, he’s unconsciously echoing John Dewey, who argued that “craftsmanship ... must be loving” and that the form of art “unites the very same relation of doing and undoing, outgoing and incoming energy, that makes an experience to be an experience.” Poetry, then, isn’t a symbol for a type of behavior, it’s an experience on its own — and the reader who is properly taught (by Stephen Fry, maybe) won’t need to stand on his desk to know it.

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